quinta-feira, outubro 05, 2006

Crónica do espanta-espíritos

O hífen é uma das vulgaridades da gramática. Usámo-lo, a maior parte das vezes, com um utilitarismo preguiçoso. Por exemplo, unindo duas palavras no sacramento de uma função: guarda-chuva. Sugiro, aliás, que nestes casos se substitua o hífen pelo underscore (função rasteira merece rasteiro instrumento): guarda_chuva (até porque nos podemos guardar de tudo, menos do ar do tempo, do clima).
Todavia, a quem lhe custa distinguir ensaio de poesia, resta a possibilidade de polemizar em torno do fino traço. Couve-flor. Uma couve que tem a aparência de uma flor. Ou se quisermos ser mais surreais, um modesto vegetal que é, ao mesmo tempo, uma couve e uma flor. As conjunções copulativas são, no entanto, pouco exactas na descrição da cópula entre as palavras. Pois não conhecemos, no nosso mundo, essa quimera que a língua enuncia. Seríamos assim mais fieis ao nosso entendimento se traduzíssemos o hífen por ou. Pois se a nossa inventividade ainda não materializou esse ser híbrido no real, a nossa imaginação só o pode entender de modo disjuntivo: olhamos para a salada, e pensamos (existencialistas...) que aquilo pode ser ou uma couve ou uma flor. A fusão não passa de ilusão.
E se trocássemos o ou pelo mas? A adversativa viria trazer uma dignidade inesperada. O vegetal é couve, sim, mas também flor! Não uma flor estetizante que venha tirar o vigor à couve, mas uma exaltação da função alimentar, uma celebração da possibilidade da vida.
Falam-me do espanta-espíritos. Um conjunto de hífens delicados que seguram bibliotecas de conchas, luas-de-trazer-por-casa, pequenas internets de barras de metal. Hoje, essa delicadeza apenas serve de motivo de decoração.
No entanto, é precisamente hoje que a nossa interpretação poética do mundo apenas surte efeito através de uma fé lúdica no mito. Não uma fé racional, muito menos cega. Presumo que ninguém supõe que o espanta-espíritos consiga afastar almas penadas, mau-olhado, ou vudus... Pelo contrário, a fé lúdica permite abrir a brecha da disjunção, do ou. Pois podemos querer espantar (afastar, assustar) os espíritos dos falecidos (o Além, quando ainda estamos aquém, é um filme de terror). Mas também podemos entender o espanto de outro modo: podemos querer que os espíritos, que os nossos mortos, nos espantem, nos maravilhem, nos seduzam, regressem até nós com palavras mansas, plenas de sabedoria e imaginação. Afinal, que mais pode o espanta-espíritos: recebe um ventinho timorato, e produz uma música tão simples, tão estelar, é o mais mágico dos instrumentos de percussão (John Cage terá composto para o espanta-espíritos?).
E a memória daqueles que nos deixaram, que outra coisa é senão uma música interpretada pela brisa? Um segredo não-verbal, uma companhia sem matéria.

1 comentário:

RS disse...

No meu caso (e penso que no teu) funcionam mais como atrai-espíritos. O meu, pelo menos, acha-os irresistíveis.

Bom feriado.
(ps: o teu irmão vem cá às seis horas - queres aparecer?)
Abraço,
RS