sábado, outubro 21, 2006

Crónica da Coca Cola

A bebida tem tudo o que convém a um império dos sentidos.
Desde logo a sua fórmula é secreta, está guardada no segredo dos deuses, e por isso a sede que convoca é acima de tudo inteligência. Uma inteligência que tenta passar a cortina de ferro do Olimpo (é a guerra fresca com o divino), e que por isso é bem mais Bond (James Bond) do que CIA. Em todo o caso, a sede é sempre íntegra e competente.
Conta-se que a garrafa que guarda o valioso líquido foi inspirada nas curvas e contra-curvas da actriz Ava Gardner (na altura, ainda não havia as auto-estradas do top modelismo). Os boatos são sempre verdadeiros quando neles se contém um ser que não pode ser contido. De qualquer modo, confesso que, para a garrafa dos meus sonhos, escolheria outros corpos (os homens pensam sempre com o seu pigmalião, nunca com a consciência). Esta coisa dos gostos tem muito de snobismo: haverá quem pense que me satisfaz com um Pepsi Prazer? Eu sou um especialista no meu próprio desejo, nenhum falsário me vende gato por rato.
No entanto, aquilo que existe dentro da garrafa (chamemos-lhe alma porque é borbulhante), isso já eu entregaria de boa vontade à condessa descalça. Nenhum conde aceita uma aristocracia abaixo de felino. E quando o outro de súbito nos acelera, ele entranha-se de imediato e só depois deixa um lastro de estranheza. A paixão é gasificada.
De resto, não há Salvação. Se é light, a bebida traz um tédio cancerígeno. Se é intensa, engorda-nos a propensão para a morbidez. Mais tarde ou mais cedo, há-de o mundo ser invadido pela coca-cola (disso falava Nostradamus). Apenas podemos lançar as nossas preces ao nosso Senhor (que é árabe como o Al Gore), e dizer: Deus nos livre da Canada Dry.

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