terça-feira, outubro 17, 2006

Arte interpretativa

1. Não sou particularmente comovido pela capacidade de transfiguração de um actor: a entrega absoluta a uma psicologia distinta da sua, a mimese do corpo do ser representado, o perfeccionismo dos sotaques, os tiques da idade, e etc., e etc. Não quero com isto dizer que desvalorize por completo a componente de composição que está na base da arte interpretativa, mas a verdade é que pouco me importa se o Dustin Hoffman dava um bom autista ou se a Meryl Streep tem inveja do camaleão. Que ganhem os Óscares todos que quiserem.

O que me seduz num actor é a tensão que se estabelece entre a personagem composta e a verdade de quem a está a compor. Seduz-me o corpo do actor (desde o desejo até à repulsa), a dança de cada um dos seus gestos, a música que faz com a voz, a vontade que um olhar sempre ostenta de ser irrepetível, a sua velocidade, a maneira de se sentar (Barbara Stanwyck em “Double Indemnity”!), a maneira de correr, o ritmo do silêncio, o desconforto de um guarda-roupa, as hesitações, as marcas irrefutáveis do seu tempo, a resistência pouco profissional à psicologia da personagem, o medo de explorar algumas emoções, o investimento no beijo, o talento para a nudez, os próprios truques, e etc., e etc.

No fundo, defendo que a validade de um intérprete se mede pela conjugação aparentemente contraditória entre o Método do Actors Studio (o actor não deve fingir mas sentir) e a prática e teoria de Robert Bresson (o actor não deve representar mas ser representado). Pois, no fundo, não são as duas horas de um filme (ou de uma peça de teatro) que nos podem dar a verdade inteira de uma personagem. Por isso, o actor deve ser capaz de criar um número de vazios suficientes para que o espectador os possa completar com a sua própria criatividade ficcional. A personagem não existe de forma absoluta, depende daquilo que todos, em conjunto, nela sabem colocar em fantasma.


2. De modo semelhante, a interpretação de um texto não deve cair na obsessão por descobrir a vontade exacta do escritor, mas conjugar aquilo que de facto está expresso com a possibilidade de sentido que o leitor consegue expandir ou encerrar. O leitor é o ACTOR do texto: dá-lhe corpo, imaginação, prazer e sofrimento.

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