terça-feira, outubro 31, 2006

Narratividade

Um quarto de hora: ainda tenho tempo suficiente para chegar ao emprego. Sou o próximo a ser atendido nos serviços financeiros dos Correios. Mas os outros clientes têm demasiado tempo: estão a contar as vidas deles aos funcionários (e já as têm bem compridas e cumpridas). Assim, apesar de eu ainda ter um bom número nas mãos, o tempo que me resta já não me vai permitir fazer uma poupança. Afinal, tempo é dinheiro. Saio dos Correios e não fui atendido.
O meu sapato descolou (é demasiado aristocrata para aguentar esperas mesquinhas). Pareço um tolo a caminhar pelas ruas (simbolismos). Mas o automóvel está perto, tudo se resolverá.
Sentado na minha máquina-do-espaço, verifico se tenho dinheiro suficiente para pagar o Parque (o custo normal é 1 euro pela primeira hora). Só tenho moedas: conto (narro). Moeda após moeda, descubro que tenho apenas... 99 cêntimos. Mas não desespero: há sempre a hipótese de comover o funcionário que controla os pagamentos, e de lhe ficar a dever uma (um). Mas um senhor simpático diz-me que, nesse dia, é preciso fazer o pagamento na máquina automática. Estou perdido: a máquina não se comove. Um cêntimo é um cêntimo e é um cêntimo.
Saio do carro. Estou definitivamente atrasado. De novo caminho com o meu sapato descolado. Lá vai o tolo à procura de uma máquina multibanco (terceira máquina da narrativa). Não há nenhuma por perto. E a primeira que encontro, não me pode atender por dificuldades de comunicação (presumo que Deus esteja num acesso de misantropia).
Regresso ao automóvel (sempre o sapato de palhaço a cativar os olhares dos transeuntes). Dirijo-me à maquina de pagamentos, meto o cartão, e o valor que tenho de pagar é... 90 cêntimos.
Isto aconteceu de verdade: não é narratividade.
O que eu precisava então era de uma máquina-do-tempo que me fizesse chegar a horas ao local de trabalho. Mas as máquinas mais úteis ainda não foram inventadas.
Gastei 90 euros num par de sapatos novos. Era o dinheiro da poupança.

segunda-feira, outubro 30, 2006

Galeria 6

René Char

No escrínio 8

Poema de René Char, traduzido por Margarida Vale do Gato

CONDUTA

Passa.
A enxada sideral
Aí de novo se abismou,
Esta noite uma aldeia de pássaros
altiva exulta e passa.

Escuta com as têmporas rochosas
das presenças dispersas
a palavra que fará o teu sono
quente como uma árvore de Setembro.

Vê que se move o cruzamento
das certezas que chegaram
junto de nós à sua quintessência,
ó minha Forquilha, minha Sede ansiosa!

O rigor de viver corrói-se
incessantemente a convocar o exílio.
Através de uma chuva fina de amêndoa
misturada de dócil liberdade,
manifestou-se a tua alquimia guardiã,
ó bem-Amada!


Apesar da sua obscuridade, o texto fornece (de soslaio) um conjunto de circunstâncias que nos permitem situar a sua acção de uma maneira razoavelmente concreta. O poeta está a falar numa noite de Setembro, provavelmente exilado numa aldeia (na altura, Char era líder da resistência francesa, vivendo refugiado na aldeia provençal de Céreste, um lugar rochoso habitado por amendoeiras). Este exílio não se refere apenas à deslocação espacial, mas essencialmente à situação de desterro humano causada pelo nazismo e pela II Guerra Mundial. Talvez esteja a chover.
No entanto, esses dados vão ser transformados (libertados) pela alquimia própria do fazer poético. Assim, a agricultura (actividade por excelência do mundo rural) deixa de se fazer na terra e torna-se sideral. A aldeia passa a ser constituída por pássaros, cujo trabalho é nada mais que exultar (este poema é exultante, exaltante). O fruto da amendoeira torna-se matéria de chuva. E Setembro assume-se como símbolo de um calor estival moribundo, mas que ainda permanece devido ao poder da palavra.
A dor espiritual provocada pela guerra (que estraga o rigor de viver) vai ser então mitigada pelo amor FÍSICO que o poeta vai receber da amada. Por isso, a palavra conduta tanto se refere a uma moral do amor corroída pelo contexto bélico (as primeiras três estâncias começam com imperativos semelhantes aos de uma ética qualquer), como à condução física provocada pelos materiais (neste caso, o corpo da amada). Assim, o autor começa por falar de pássaros (seres vivos, sólidos quentes), que logo se transformam em presenças dispersas (onde o espectral se acumula), por sua vez estas tornam-se certezas (um conceito intelectual), e tudo isto depois cai em chuva de amêndoa (a amêndoa pode evocar a cor da amada, o sabor da sua pele, mas acima de tudo refere-se a um fruto seco, concreto, o oposto do inefável). Esta flutuação entre conceitos físicos e conceitos espirituais é, portanto, causada pela duplicidade de sentidos da palavra conduta. Para o poeta de formação surrealista, a conduta moral mais perfeita é a que deriva da prática do sexo (da condução dos prazeres através dos corpos).
Esta alquimia bem terrena exige, então, uma queda. A acção do pensamento sobre os pássaros que no início exultam tem como efeito a sua queda sob a forma de chuva alimentar. Afinal, se a Forquilha é um símbolo mágico, é essencialmente porque é com ela que desbravamos a terra que nos permite sobreviver. E se a Guerra é uma luta corpo a corpo, também é com o corpo que o Amor tem de responder.

No original

CONDUITE

Passe.
La bêche sidérale
autrefois là s'est engouffrée.
Ce soir un village d'oiseaux
três haut exulte et passe.

Écoute aux tempes rocheuses
des présences dispersées
le mot qui fera ton sommeil
chaud comme un arbre de septembre.

Vois bouger l'entrelacement
des certitudes arrivées
près de nous à leur quintessence,
ô ma Fourche, ma Soif anxieuse!

La rigueur de vivre se rode
sans cesse à coinvoiter l'exil.
Par une fine pluie d'amande,
mêlée de liberté docile,
ta gardienne alchimie s'est produite,
ô Bien-aimée!

René Char

sábado, outubro 28, 2006

No plateau 3

O projecto de Jean-Look Spiell Bergman requeria a colaboração de um compositor. Falaram-lhe de Johann-Joachim van B. B. B., que era um estudioso de J. S. Bach, preocupado com a permanente actualização e renovação da pulsão polifónica.
A ideia era fazer uma Arte da Fuga com os meios do cinema. Ideia nebulosa, claro está, e que por essa altura se resumia ao desejo de, na realização de cada filme, se acharem equivalências plásticas para o progresso polifónico de cada fuga a ser encenada. Ou seja: Se numa fuga a duas vozes, o soprano efectuasse uma escala ascendente, enquanto o contralto se alongava numa nota única, a imagem poderia, por exemplo, mostrar um muro recto, paralelo à zona inferior do enquadramento, coabitando com uma linha arquitectónica ascendente que, apesar de não estar situada à mesma distância do dito muro, perderia lonjura devido à diminuição da profundidade de campo causada por uma tele-objectiva. E se a melodia do soprano fosse articulada em stacatto, também poderia a linha arquitectónica (na imagem) sofrer descontinuidades na sua evolução. Tudo dependente da imaginação que acontece no plateau.
A montagem manter-se-ia como a operação-chave desses filmes, na medida em que criaria linhas de compasso distintas daquelas sugeridas pela pauta do compositor. Aliás, para não se confundir com a edição mais formal que narrativa preconizada pelos soviéticos do mudo, a montagem tentaria comportar-se como mera barra de compasso, tentaria ser invisível, mais conciliadora do que expressiva, destinada a uma harmonia capaz de diluir a agressividade de cada corte. Esforço, de resto, inglório, pois nenhuma continuidade pode surgir quando se encadeia um muro/igreja com uma ponte de dois tabuleiros, e esta com a linha cuidadosamente podada de um canteiro de flores.
No fundo, Jean-Look Spiell Bergman queria filmar cidades. E queria fazê-lo com uma sistematicidade que não se pudesse distinguir de uma espécie de Grande Logro das Esferas.

quinta-feira, outubro 26, 2006

"Sunset Boulevard" - imagem

O INACTUAL 5

"Sunset Boulevard" - Billy Wilder (1950)

No famoso clássico de Wilder, prefiro ver não tanto a crítica à máquina cruel de Hollywood, mas a construção de uma parábola sobre a sétima arte feita através de um subtil desvio às regras do cinema de género. Neste sentido, este film noir aproxima-se de obras-primas como "Peeping Tom" de Michael Powell (filme de terror) e "Rear window" de Alfred Hitchcock (filme de suspense).
O autor atribui, à personagem do argumentista (ou seja, àquele que aparentemente providencia o conteúdo do filme), toda a componente vital da obra: William Holden representa um homem novo, vivido, libidinoso, imerso na sua época, realista. Em compensação a personagem do realizador (interpretada por um dos mais geniais cineastas do tempo do mudo, Erich von Stroheim) toma a função do embalsamador (Bazin deve tê-lo dito na altura), daquele que vem justificar o conteúdo numa forma que se pauta pelas regras da morte (congelamento do corpo numa inconsistência espectral, eternização das acções, etc.). Não esqueçamos que Unamuno disse que as palavras são realidades, e as visões são ilusões (precisamente o contrário daquilo que de imediato suporíamos).
O argumentista tem portanto de morrer às mãos da matéria principal do filme (a Actriz), pois é ela quem faz a mediação entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos. Assim, a personagem de Holden morre numa piscina rectangular, iluminada, à noite, que me parece uma evidente metáfora do ecrã. E ao morrer, transforma-se em voz-off, assim denunciando o carácter ambíguo de um recurso que, mais do que estilístico, é metafísico (o que é uma voz, quando separada do corpo?).
Quando no fim, a actriz (inesquecível Gloria Swanson) se aproxima da câmara pronta para filmar o seu close-up, a imagem fica desfocada porque se atingiu a essência perigosa do cinema - a perda do sentido (resta saber se da realidade, ou da fantasia).
Em conclusão, o amor não pode vingar (o velho realizador vive humilhado, a velha actriz ama um gigolo, o argumentista não é honesto com a namorada), porque o que se passa no cinema é demasiado grande e delicado para aguentar a coabitação com um funcionamento industrial.

No divã

(Por favor, não façam isto em casa)

Há alguns posts atrás, eu escrevi uma Crónica da Coca Cola. Concluo agora que esse texto tinha, ao mesmo tempo e em plena fusão, um sentido poético e um sentido político. Contudo, aquilo que no texto era válido para a poesia (a coco-alma a invadir o mundo dos que desejam), era catastrófico no âmbito político (o aumento do nível dos mares).
Ou seja, o texto pode ser considerado ora realista (é essa a fractura que podemos observar no real), ora pessimista (a tentativa de viver poeticamente pode até acelerar a decadência do mundo).
Você decide.

Stand up

Depois de uma psicobreve análise a mim mesmo, concluí que muitas das características da minha personalidade são temas de stand up comedy.
(Penso que esta não é uma auto-crítica).

EUA

A evolução deste blogue já deve ter denunciado a variação que avaria a cabeça do autor (depois de Pessoa, somos todos heteronímicos). É toda uma amálgama de estados de alma contraditórios (botas que não batem com as perdigotas), que o leitor distraído pode tomar como indício de esquizofrenia.
Por isso, em defesa da minha saúde mental, afirmo que estes estados estão muito bem unidos.
(Penso que este post não é sobre mim).

Confissão 11


Em plena febre de votações, também tenho direito ao meu disparate. Por isso assumo que, apesar da flutuação dos estados de alma, do crescimento do meu produto interno bruto, e de todas as obras-mais-ou-menos-primas, este é o filme da minha vida.
("O espírito da colmeia" de Victor Erice).

O destino do corpo

Pergunta-se: como pode o Rei D. Dinis estar lado a lado com a Rosa Mota?

Ora, há uns posts atrás, eu dei uma numa cravo. Vou agora passar à ferradura, utilizando as imortais palavras do rei-poeta:
Ai flores, ai flores do verde pino
Se sabedes novas da Rosa Mota?
Ai Deus, onde isso já vai...
(Moral do poema: quem corre mais rápido, chega mais cedo à meta).

A minha Lista

Também vou apresentar uma Lista.

A Lista de toda a gente que desejei ao longo da vida (não há quem não seja Dom João de Platão). E depois mando o Leporello ao supermercado, que isto não é olha para o que eu sonho, não olhes para o que eu concretizo.

Um pouco de misantropia

Depois de ontem ter assistido ao programa em torno dos Big Portugueses, confirmei a minha já antiga aversão ao debate. E fiquei com a sensação de ter perdido um tempo que nunca vou querer reencontrar.
Pois, para além de termos ficado a saber que os jovens portugueses são mais complicados do que irreverentes, a única coisa de que ouvimos falar foi de Oliveira Salazar. (E no fim, dizem-me que é tudo uma brincadeira).
Em verdade vos digo, Salazar é talvez o português mais falhado (ups, falhei), dizia o Português mais Falado de Sempre.

Os mais aborrecidos

Da experiência que acumulei ao longo das minhas singelas trinta e quatro vidas (sou mais gato que estações), já posso afirmar que os Portugueses Mais Aborrecidos de Sempre são os historiadores.
E os professores de História (se bem que estes estejam enganchados na Terra do Nunca).

terça-feira, outubro 24, 2006

O pior português

Aqui estão as minhas sugestões para a lista de candidatos a Pior Português de Sempre (eleição criada pelo Inimigo Público e pelo Eixo do Mal):
- Zezé Camarinha
(não precisa de fundamentação)
- A Padeira de Aljubarrota
(entre duas coisas quentes, o pão e a guerra, escolheu a que arrefece pior)
- A Nossa Senhora de Fátima
(pela amostra, parece que só gostava de poesia bucólica; ora, espera-se que uma divindade seja mais abrangente e variada nos seus gostos - para bem das aparições a todos nós).

segunda-feira, outubro 23, 2006

Leitura concluída

Últimas notas sobre "O Castelo"

- A eficácia da autoridade depende menos da força física ao seu dispor do que da fantasia que cria naqueles a quem se dirige. Os familiares de Barnabas têm consciência de que poderiam ter de algum modo contornado a maldição que sobre eles caiu, mas ficaram quietos, como se tivessem um prazer masoquista em se oferecerem como sacrifício à omnipotência do Castelo. O próprio K., no fim do romance, já está completamente fascinado pela relação de Frieda (sua namorada) com Klamm (poderoso senhor do castelo). O Poder implica sempre uma satisfação imaginária.
- As personagens falam, falam, trocam pontos de vista, defendem teses, constroem argumentações aparentemente infalíveis, expandem-se em relatos longuíssimos (muitas vezes em discurso indirecto), lutam com o verbo. Ninguém convence ninguém, o mundo não é revelado: é o falhanço da advocacia, a retórica depende mais de necessidades íntimas do que da fidelidade à verdade.
- K. é o homem desprezado. Mas todos se identificam com ele, todos de algum modo o desejam (as mulheres apaixonam-se aos magotes). Pois há nele uma irreverência (não muito inteligente, digo eu) através da qual os outros sentem a vaga esperança de verem resolvidas as suas frustrações. Mas o que é curioso é que K. é amado na condição de que continue a ser verbalmente considerado medíocre. O heroísmo é demasiado precioso para ser celebrado, no mundo moderno precisamos de anti-heróis.
- Há exemplos famosos de especialistas que terminaram grandes obras que ficaram incompletas. É o caso da ópera "Lulu" que Alban Berg não conseguiu concluir, mas à qual um discípulo deu a forma final. No entanto, espero que nunca ninguém se lembre de completar "O Castelo". O precipício em que o romance acaba diz tudo o que faltava dizer. É um murro no estômago, o livro fecha-se como o Castelo que ele próprio encena. A falta passa a fazer parte da sua estrutura, o leitor sofre o fim da vida de Franz Kafka.

No plateau 2

A nova curta-metragem de Jean-Look Spiell Bergman tinha uma estrutura aparentemente simples.
Um lento travelling circular em torno da ilha de Murano (em Veneza), fundido com um texto da autoria do poeta Jean-Charles Rimelaire chamado a fragilidade não é uma opção. A acompanhar este letárgico plano-sequência, o vidro que separava a câmara da ilha (a janela de um barco) ia quebrando paulatinamente.
Mas Jean-Look estava insatisfeito. Mandou chamar um especialista no trabalho de vidro e colocou-lhe as seguintes questões:
- Seria possível sincronizar o quebrar do vidro com a duração global do plano-sequência?
- Haveria algum modo de tratar a rachadela de uma forma pictórica? (a fenda progressiva sendo dirigida por um pincel imaginário previamente programado no ADN do vidro)
- E música? Poder-se-ia tratar o desfazer do vidro como se isso fosse música concreta? Ligá-la ao ritmo e ao sentido do texto, comentar a paisagem insular lentamente revelada?
O cinema, quando não se submete aos efeitos especiais, comporta uma tremenda exigência de futuro.

Post de chuto

Dependentes somos todos. Mas nem todos escolhemos bons cogumelos.

sábado, outubro 21, 2006

Confissão 10


De noite, estes frutos são a minha constelação favorita. Oriento-me pela luz que me escolheu.
(Diospireiro)

Clareza em castelo

Quando K. se torna testemunha ocasional do bulício matinal na estalagem dos senhores, fica pasmado com a irracionalidade que caracteriza as relações burocráticas e profissionais. O mundo à sua frente revela a sua imensa loucura. K. pensa ter conhecido algo de essencial: o Poder ficou mais claro.
No entanto, logo lhe vêm dizer que aquele espectáculo a que ele está a assistir não é usual, e que só está a tomar aquelas proporções porque K. está a ocupar a posição ilícita de testemunha. Em "O Castelo", a verdade nunca é objectiva, vemos apenas aquilo que a nossa presença torna visível.
De algum modo, Kafka tem uma pequena costela Kantiana.

A noite

Os secretários de "O Castelo" muitas vezes tratam os seus assuntos oficiais quando estão metidos na cama. Há quem diga a K. que eles fazem isso para poderem dialogar com os seres que desprezam, de uma forma sumária e na meia-penumbra.
Mas isso é uma ilusão. Kafka demonstra como a noite os torna todos (senhores e subordinados) mais frágeis, a intimidade instala-se, a irracionalidade já não precisa de se mascarar.
De qualquer modo, o autor constrói as sua definições da forma mais livre possível: é na NOITE que nos é oferecida a nossa salvação, mas nós nunca a aproveitamos porque estamos a dormir.

Crónica da Coca Cola

A bebida tem tudo o que convém a um império dos sentidos.
Desde logo a sua fórmula é secreta, está guardada no segredo dos deuses, e por isso a sede que convoca é acima de tudo inteligência. Uma inteligência que tenta passar a cortina de ferro do Olimpo (é a guerra fresca com o divino), e que por isso é bem mais Bond (James Bond) do que CIA. Em todo o caso, a sede é sempre íntegra e competente.
Conta-se que a garrafa que guarda o valioso líquido foi inspirada nas curvas e contra-curvas da actriz Ava Gardner (na altura, ainda não havia as auto-estradas do top modelismo). Os boatos são sempre verdadeiros quando neles se contém um ser que não pode ser contido. De qualquer modo, confesso que, para a garrafa dos meus sonhos, escolheria outros corpos (os homens pensam sempre com o seu pigmalião, nunca com a consciência). Esta coisa dos gostos tem muito de snobismo: haverá quem pense que me satisfaz com um Pepsi Prazer? Eu sou um especialista no meu próprio desejo, nenhum falsário me vende gato por rato.
No entanto, aquilo que existe dentro da garrafa (chamemos-lhe alma porque é borbulhante), isso já eu entregaria de boa vontade à condessa descalça. Nenhum conde aceita uma aristocracia abaixo de felino. E quando o outro de súbito nos acelera, ele entranha-se de imediato e só depois deixa um lastro de estranheza. A paixão é gasificada.
De resto, não há Salvação. Se é light, a bebida traz um tédio cancerígeno. Se é intensa, engorda-nos a propensão para a morbidez. Mais tarde ou mais cedo, há-de o mundo ser invadido pela coca-cola (disso falava Nostradamus). Apenas podemos lançar as nossas preces ao nosso Senhor (que é árabe como o Al Gore), e dizer: Deus nos livre da Canada Dry.

quinta-feira, outubro 19, 2006

Rivolição

Todos conhecemos o Cassete Carvalhas e o Cassete Jerónimo. E é mesmo verdade que, no lado B destes senhores, a música é sempre a mesma. Mas basta ler os ideólogos de direita para ficarmos com a mesmíssima impressão. Não é preciso que o Dr. Pacheco Pereira (aqui o Dr. é necessário) escreva a sua Opinião: já a sabemos de antemão.
A Agustina é a minha romancista portuguesa de cabeceira. Sigo avidamente o blogue do Pedro Mexia. Aprecio os poetas e os pensadores católicos. Nunca tive problemas com a inteligência, quando esta escapa à estreiteza que sempre se lhe pretende impor.
Para além disso, voto sempre em branco (isto de esquerda está preto). Presumo ainda que o folclore da revolução só possa parecer risível à imaginação contemporânea. E se algumas das pessoas envolvidas no caso Rivolivre até são minhas amigas, é com rigor que reclamo que nem sempre essas pessoas respeitaram a minha liberdade com o mesmo rigor que agora devotam ao seu protesto.
Mas estou solidário com a ideia global.
É que, de facto, chegamos a um ponto da nossa História em que o aspecto determinante da nossa vida é tão-somente a economia. Não ria, leitor. Pois houve uma era da Razão, uma era de Deus, falou-se depois muito no Homem, agora é a Economia. É, na verdade, o fim da História. Mas depois do 11 de Setembro, mesmo os mais cegos compreenderam que esse não é um final feliz.
Há coisas evidentes: desde a proliferação nuclear (aproveito para lembrar que o único crime nuclear tem autoria dos Estados Unidos) ao terrorismo, tudo isso passando por esse absurdo que nos dizem ser demagógico mas que é, profundamente, um absurdo: metade do planeta sofre de obesidade mórbida, a outra metade da morbidez da fome.
Há coisas muito pouco evidentes: as pessoas nunca se questionam se todas essas horas que dedicam a um trabalho que só as deixa sobreviver é ou não um esbanjamento do tão curto e precioso tempo da nossa vida; o mundo tornou-se tão complexo que deixámos de o entender (perguntava Monica Vitti, em "L'eclisse" de Antonioni, para onde vai o dinheiro que se perde na Bolsa; e Alain Delon, profissional da especulação, não fazia a menor ideia); e é só pelos equívocos que a liberdade vai permitindo, que o mercado não se torna entidade ditatorial.
E ainda as coisas mais ou menos evidentes: os salários baixam, a reforma está a um passo de desaparecer, o trabalho acaba, a saúde tem de ser paga, os cursos universitários não garantem futuro nenhum, as situações de miséria são gritantes.
Até concedo que, neste mundo que construímos, já não se possa viver de outro modo. O velho Sócrates já não tem razão: há novo Sócrates em acção.
Mas permitam-me o desabafo: este mundo já não me parece construído para mim. Sou eu que tenho de me adaptar aos caprichos, às mediocridades, às pequenas tiranias do dinheiro. O dinheiro é o grande e o único triunfador da nossa humana aventura. E quem mais sofre com tal estado das coisas, é quem mais defende que tem de ser assim. Dizem-me que o que se leva desta vida é o sábado à noite... Pois eu levo esta minha estranheza que pretendo mais filosófica que demagógica.
Ou serei o único que acho que umas centenas de contos pagas a um cineasta alternativo (prefiro dizer bom cineasta) contra o pequeno prejuízo de um público reduzido, é um mal menos constrangedor do que as fortunas que os jogadores de futebol ganham à custa de quem empenha o salário de um mês inteiro para ver meia dúzia de jogos no campeonato do mundo?
Os políticos que defendem um modelo laboral onde as pessoas são meros títeres nas mãos da Economia (que teve um papel tão nobre no princípio da nossa História), são os mesmos que defendem o pobre povinho das arrogâncias herméticas do intelectuais. O Beckett devia ter escrito teatro de revista. Mas nada é assim tão simples.
Penso que os rivolitosos pretendem viver as suas vidas dando preferência a outros aspectos da experiência humana que não apenas a Economia. Serão perdedores, um pouco ridículos, bastante desequilibrados até, mas estão no seu direito. E o direito que tutelam parece-me o mais belo de todos: o de amar o Homem em todo o seu potencial, e na aspiração da sua crescente liberdade. Se as Ideologias se fizeram para o Homem, e não o contrário (o comunismo, nunca mais!!!), também a Economia se fez para o Homem, e não o contrário. Vir falar de público, elites, prestígio, qualidade, rentabilidade... Isso que interessa? Até porque pode um gestor privado ser tão snob que aposte num elitismo pior do que qualquer subsidiodependência.
Que outros pensem o contrário - estejam à vontade. Eu acredito que a missão da Arte se confunde com o mais profundo e o mais amplo que pode ser concedido ao, e conquistado pelo, Homem. Por isso vejo filmes de Bresson e de Eisenstein, leio Miguel Torga e Paul Éluard, aprecio Brecht e Claudel. Quero apenas não caber em mim. Quero sair do labirinto do dinheiro, e a Criação é um dos poucos fios de Ariana que conheço. O Rivoli interessa-me pouco (até posso abandoná-lo em las férias permanentes). Mas o meu credo é este.
Por isso voto em branco.

Galeria 5

Natália Correia

A língua inglesa

Dizem os Clã que a vida devia ser como no cinema, onde a língua inglesa fica sempre bem e nunca atraiçoa ninguém.
Isto de associarmos o inglês à ausência de traição parece-me uma Ideia de Demagogia Maciça, apesar de todos sabermos que tal coisa não existe. Mas mesmo o ficar sempre bem me faz lembrar aquela comediante que dizia: com um vestido preto, eu nunca me comprometo. Ora hoje, temos todos de ser mais políticos do que isso.
Houve mesmo uma fase em que não se ouvia ninguém falar mais inglês do que a palavra fuck (ah! o realismo...). E pouco mais sabemos dessa língua do que a secura da sua terminologia técnica, a herança dos vaqueiros (you guys, you guys) ou a degenerescência do posh britânico.
Só aprecio o inglês quando ele é solene. Quando não conhece nenhuma outra hegemonia a não ser o seu desejo de elegância. Quando não resolve mas cria um problema de expressão. Quando é trabalhado por um ourives que abandonou todas as matérias preciosas à excepção do tempo. Só aprecio o inglês que não pode ser ensinado.
Because I do not hope to turn again
Because I do not hope
Because I do not hope to turn
Desiring this man's gift and that man's scope
I no longer strive to strive towards such things
T. S. Eliot
Como diria aquela comediante: não sei como há Homens que não gostam disto.

No plateau 1

Jean-Look Spiell Bergman chegou ao plateau cheio de ideias.
Pretendia filmar a seguinte imagem: uma flor em muito grande-plano, na zona esquerda do enquadramento; muito ao longe passaria o vulto do protagonista, caminhando da direita para a esquerda, até desaparecer por trás da colossal planta. Total profundidade de campo. Passados alguns segundos daquela acção, sairia um insecto de dentro da flor (uma formiga gigante, ou uma bicha-cadela).
Foi preciso abrir um concurso para contratar um domesticador de insectos. Mas ninguém sabia se tal profissão era um efeito especial.

Hiperbólicos Portugueses

Aquando da sua passagem pela Assembleia da República, a deputada Maria Elisa propôs que se fizesse a trasladação do Panteão para as cinzas do senhor Fernando Pessoa.
(Qualquer semelhança entre esta ficção e a coincidência, é pura irrealidade).

terça-feira, outubro 17, 2006

Imagens

O filme “Little Miss Sunhsine” é extremamente simpático. Não tanto um feel good movie, mas uma pedrada no charco do sucesso e do conformismo. Filme rente ao humano, ao sabor de um veículo que só funciona a descer (é um grupo de falhados) ou que precisa de solidariedade para arrancar (é uma família). Ainda por cima, com alguma provocação directa às Vestais deste mundo.

No entanto, para além do argumento não me parecer suficientemente bem explorado, algumas declarações dos realizadores deixaram-me francamente insatisfeito. Jonathan Dayton e Valerie Faries pretenderam que, no seu filme, se notasse mais a cooperação com um argumentista do que a marca do seu passado como fazedores de videoclips. Compreendo que se referiam essencialmente à estética suja que “Little Miss Sunshine” tenta reproduzir. No entanto, dada a pobreza das imagens efectivamente conseguidas, fico com a sensação de que ainda existe, no cinema, uma distinção artificial entre imagens belas e feias (ou seja, entre o decorativismo e a ausência de expressividade). Ora, esse é um falso problema (um modo errado de entender os conceitos de forma e conteúdo).

“Little Miss Sunshine” é, acima de tudo, um filme palrado. Mas o cinema não é teatro, não é narrativa. O cinema é a montagem de imagens e sons. Uma imagem pode ser assombrosamente fascinante (Tarkovski), ou a mera espuma de um café (Godard). Pode incidir na afectividade da fotogenia (Bergman) ou na perversão fria do que é encenado (Buñuel). Pode exigir a palavra (Oliveira) ou prescindir dela (Murnau). Mas é a sua contundência que decide o assunto de um filme. Filmar é inventar imagens.

Ou seja, é justo que se queira abandonar a futilidade da estética MTV. Mas se isso implica a ausência de criatividade especificamente visual, então não estamos perante cineastas.

Luta de classes

Resolvi fundar um partido: o PCP – Partido Comunista do Prazer.

É que ao lado da desigualdade de copeques que cada um tem para se amanhar na vida, existe uma outra desigualdade que não é grave de um modo intenso, mas sim extenso. Pois há quem exerça uma profissão que verdadeiramente ama, ganhe bem ou menos bem, e há quem seja escravo mais ou menos consciente (menos ou mais anestesiado, portanto) de um labor que não completa a sua inteligência. Ganhe mal ou menos mal. Há aqui, portanto, uma enorme diferença de rendimento: passamos tanto, tanto tempo a trabalhar, que é justo dizer que há quem seja feliz em full-time, e outros apenas em part-time.

Ou já estaremos tão resignados que achamos que o prazer não passa de um subsídio de férias?

Ingenuidade

Ninguém é mais dependente do que eu deste português que se fala em Portugal. Quando passei um período de mais de dois meses em Inglaterra, senti-me em verdadeiro estado de ressaca intelectual, como se já não soubesse pensar, interrogar, escrever, ou até mesmo desejar.

Vi recentemente, na televisão, a cantora Eugénia Melo e Castro defender que, apesar de viver e trabalhar no Brasil (por razões de afinidade com a Canção desse país), continua a exprimir-se musicalmente com o sotaque de Portugal. Acredito, e até agradeço a militância. Mas o que me saltou aos ouvidos foi o incrível esforço que essa mulher fazia para falar fiel ao seu propósito. Ele era uma vogal que se queria abrir, uma expressão bem mais ipiranga que pessoana, um desarranjo da sintaxe a pedir calor e aguinha de coco… Era uma luta titânica.
Ou talvez entre Davi e Golias, quando o português quer deixar de resistir e entregar-se de alma e canção à virilidade de um sotaque fatal.

Para defender a nossa causa, é preciso ter a lucidez de a saber perdida à partida.

Faróis

Não leio revistas de teatro. Mas vou ao teatro, e leio jornais. E no entanto, continuo a sentir-me incapaz de construir um discurso crítico sobre os espectáculos a que assisto. Os críticos de Arte são brilhantes (por vezes mais brilhantes do que…?), os críticos de cinema esforçam-se (e houve o exemplo dos Cahiers), mas o teatro faz figura de parente pobre na imprensa genérica. Além disso, os programas que as companhias disponibilizam nas suas récitas não contêm crítica, por razões óbvias. Por isso agradeço ao blogue O MELHOR ANJO pelo seu serviço público.

Também uma palavra de simpatia para Desidério Murcho que, no suplemento Mil Folhas do jornal PÚBLICO, vai fornecendo pistas para uma biblioteca de filosofia contemporânea. Quem mais o faz? Pergunto-me só se as sugestões não poderiam extravasar o âmbito anglo-saxónico…

E claro, o Rui Tavares, que em matérias de política vai tendo razão algumas vezes mais do que eu.

No escrínio 7

Tradução do soneto de Shakespeare (do post anterior) por Vasco Graça Moura:

Nunca vi precisasses de pintura
e assim não te pus tintas na beleza,
achei-te (ou cri que achava) mais altura
para o que dá poeta em singeleza.
E dormi sobre o que és, para que bem
se visse, porque existes, como desce
um aparo moderno e fica aquém,
falando de valor, do que em ti cresce.
Tomaste esse silêncio por meu crime,
mas terei, mudo, glória mais subida,
nem a beleza o ser calado oprime,
que outros são tumba achando que dão vida.
Um só dos olhos teus mais vida anima
que teus dois vates em louvor e rima.


Shakespeare foi um poeta invulgarmente lúcido, e até por vezes demasiado cansado para se deixar levar pela poesia. No soneto proposto, o próprio poeta assume que escreveu o seu texto apenas para dizer que o seu texto não deveria ter sido escrito. Claro que há aqui não só uma dimensão de modéstia (que não é postiça pois combina com a lucidez), mas também uma hipérbole indirecta: o ser amado é inefável. Mas o aspecto mais moderno do texto é a sua auto-negação. Não ecoará esta atitude na metafísica do não-pensamento que Alberto Caeiro finge defender, ou ainda mais justamente numa obra como a do poeta holandês contemporâneo Gerrit Komrij?

O poema parece defender a sua total irrelevância. E com tanto vigor que, no último verso, certifica mesmo que esse parco valor não aumenta em consequência de uma prática poética baseada na humildade. Mas Shakespeare apenas admite que se manteve silencioso (que não usou tintas), não diz que não fez poesia. Mais: o poeta afirma que dormiu sobre a descrição da amada (slept in your report). Não escrever o poema equivale, assim, a sonhá-lo, ou melhor dizendo: a dormi-lo. Se os poetas que efectivamente accionam a escrita (os ingénuos) acabam por descambar na esterilidade (os seus textos são tumbas), aqueles que se deixam ser accionados pela escrita, encontram a glória poética.

O quinto verso permite, portanto, concluir que esta insatisfação com a poesia não é mera retórica, mas uma preocupação que se abre ao futuro. E se passados alguns séculos, ainda Mallarmé se debatia (exemplarmente) com o vazio inerente à criação artística, foi no espaço de poucos anos a seguir à morte deste que os surrealistas vieram desfazer esse dilema, ao proclamarem a fusão entre poesia, amor, e vitalidade. Com base em quê: no inconsciente. E mesmo que os Holocaustos do século XX tenham (temporariamente?) desfeito a ilusão fundada por Breton, o facto é que um poeta como Paul Celan (próximo do grande Pesadelo) certamente concordaria com este gesto lúcido de Shakespeare, que frontalmente desfaz um dos mais velhos clichés do Homem, ao dizer que o sono NÃO É a morte.

Diria agora eu, por minhas palavras, que todo o poema se escreve na região de pausa de um ser. E digo-o sem interesse nas ciências da psique, mas rendido à imprevisibilidade da criação.

No original

I never saw that you did painting need,
And therefore to your fair no painting set;
I found (or thought I found) you did exceed
The barren tender of a poet’s debt;
And therefore have I slept in your report,
That you yourself, being extant, well might show
How far a modern quill doth come too short,
Speaking of worth, what worth in you doth grow.
This silence for my sin you did impute,
Which shall be most my glory, being dumb;
For I impair not beauty, being mute,
When others would give life, and bring a tomb.
There lives more life in one of your fair eyes
Than both your poets can in praise devise.


William Shakespeare

Duas notas a "Transe"

1. No segmento russo do seu filme, Teresa Villaverde maneja a câmara sob a inspiração clara de Andrei Tarkovski. Já todos sabemos que, quando a influência não nos angustia, nunca nos tornamos plagiadores. Mas o que aqui releva é esta sensação que nos fica de que existe uma continuidade natural, afectiva, entre a estética que o autor de “Andrei Rublev” desenvolveu e a paisagem do seu país de origem. Como aconteceu, de outro modo, a John Ford e ao Monument Valley. Ou talvez não seja isso: as imagens de Tarkovski podem ser de tal modo contundentes que já é difícil contemplar a Rússia não urbana sem recorrer ao filtro de cinema que ele nos legou.
Onde surgiu primeiro o ouro: no ovo ou na galinha?

2. Parece-me que este drama assim exposto sem paninhos quentes, por vias travessas acaba por contribuir para a defesa de uma regulamentação jurídica para a mais velha profissão do mundo (uma discussão na ordem do dia). Onde há Lei, há pelo menos a ilusão de que nem tudo, no inevitável, é inevitável.

O ACTUAL 4

“Transe” – Teresa Villaverde


Confesso que a sensibilidade desta autora é bastante diferente da minha. Há nela uma espécie de peso masoquista que a leva a eleger, no universo religioso, o episódio da Paixão como o seu mito pessoal. Eu sou adepto da Ressurreição (esta vida são três dias…). Além disso, nos grandes assuntos morais, prefiro ficar mais perto de Abbas Kiarostami do que de Lars von Trier. Mas precisamente porque não admito que tentem desviar a minha própria sensibilidade, penso que tenho o dever de não interferir na dos outros, e de os tentar compreender exactamente como eles são.

“Transe” levanta questões deveras importantes: desde uma visão corajosa da Europa, muito diversa daquela que nos é sugerida nos discursos edificantes dos homens políticos (este é o outro lado do sonho europeu), até ao entendimento do mundo moderno como sendo um continente onde se perderam as fronteiras sobretudo morais, passando pela destruição do mito aventuroso da viagem, pelo questionamento do Ocidente como destino de sonho (a viagem faz-se da Rússia até Portugal), e pela afirmação de que a violência que costumamos associar à guerra se mantém no contexto de paz, ainda que sob outras formas (menos visíveis, mas igualmente ferozes).

A direcção de actores é fantástica, e a autora está no cume das suas capacidades para filmar (os planos com Natureza trazem essa evidência, mas eu sublinharia a ousadia dos enquadramentos em torno do rosto e do corpo de Ana Moreira, sempre a explorarem soluções de desequilíbrio e a aceitarem o vazio como produtor de sentido). A escolha de um director de fotografia associado ao documentário não será alheia à crueza com que o filme nos assalta.

Há um plano em que vemos as luzes criadas por uma bola de discoteca a viajarem pela parede da sala de um bordel, Ana Moreira sai de campo, e regressa algum tempo depois com o bâton dos lábios esborratado sobre o rosto. Mas o fascínio das luzinhas mantém-se. Não só fica claro que a Beleza é fria e não se corrompe com o Sofrimento (o plano em que, no princípio da obra, o gelo se fractura, indicia mesmo uma intensificação do sublime), mas acima de tudo a autora parece querer dizer que se existe Sofrimento, é tão-somente porque temos noções, expectativas, afectos de Beleza. Temos a ilusão dos sonhos acordados, e quando o real se torna pesadelo, já nem o sono nos pode fazer felizes. Por isso, a gravidade do tema não descamba nem no estetizante (que é sempre imoral), nem na vontade de fazer sujo. Teresa Villaverde desfaz a aporia com a sageza da sua intuição.

E há todo um conjunto de deliciosas subtilezas. Por exemplo, se Sónia, a partir de dada altura, consegue falar italiano, português, etc.,, isso não só revela a espécie de Babel imoral em que ela caiu, mas acima de tudo sugere que a personagem sofreu tanto que foi tocada pelo Espírito Santo, e por isso consegue fazer-se entender em qualquer língua que pretenda.
Outro exemplo: toda a sequência da prisão no palacete, para servir de odalisca privada a um deficiente, pareceu-me uma perversão gritante do espírito das “1001 noites”. É o maravilhoso que existe no Terror.

Teresa Villaverde quis levar o seu gesto até ao limite (a sequência com o cão), e isso é sempre polémico, gerador de discussão. Só podemos admirar a coragem de quem arrisca para lá da vontade de qualquer consenso.

Tate Modern

Palavras do artista Carsten Höller, responsável por uma instalação apenas feita de escorregas que neste momento ocupa uma sala daquele museu britânico:

“Podíamos ter escorregas a atravessar cidades. São amigos do ambiente e introduzem um elemento de loucura na vida de todos os dias.”

Gralhas

Quando escrevia para uma revista de cinema, as gralhas que sempre surgiam nas primeiras provas de cada edição, mais do que me fazerem sorrir, pareciam-me carregadas de sentido.
Relembro os dois acidentes mais espirituosos.

Num artigo sobre Cassavetes, tive eu o desplante de, em vez de escrever os géneros (ou os dois sexos, ou pura e simplesmente os homens e as mulheres), optar pela insípida expressão os tipos sexuais. Não sei se foi obra e graça de quem tipografou o meu manuscrito (nas editoras haverá gente com sarcasmo), ou mera ironia de um destino de pouca tiragem, o facto é que, aquando da correcção das primeiras provas, no lugar daquele meu literário transporte, eu li: os tiros sexuais. Elas cá se fazem, elas cá se pagam: puseram-me no meu lugar. Pois nisto de sexo, é preciso saber sempre o que mais interessa.

Diferente foi o caso de um outro redactor que havia elogiado, com circunstância e alguma pompa, um cineasta que não fazia o agrado da maior parte dos outros colaboradores. E dizia coisas do género jornalista, como por exemplo: ao longo da sua grande carreira como criador. Chegam as ditas provas, e a vingança trouxe uma geral satisfação. A frase apenas perdera uma letra, mas ganhara dignidade: ao longo da sua grande carreira como criado

Igualmente aqui, no meu arremedo de blogue, já publiquei um pequeno erro, que entretanto corrigi. Não é tão engraçado, mas também fala alto. Na “Crónica do espanta-espíritos”, queria eu escrever o seguinte: Terá John Cage composto para espanta-espíritos? No entanto, um esse distraído alojou-se na frase, e a coisa ficou assim: Terá John Cage compostos para espanta-espíritos? A verdade é que eu quase disse a mesma coisa. Pois não pode a música ser apenas mais um composto a acrescentar aos búzios que fazem o objecto? Desde quando a invenção ocupa uma importância de tamanho maior do que a simples matéria a que se refere?

Confissão 9



Só aprecio o preto-e-branco imperfeito do cinema antigo e frágil (quando ser a-duas-cores era mais condição do que ambição). Hoje, o preto-e-branco de alto teor tecnológico, sumptuoso, virtuoso, controladíssimo, impede-me de sonhar.

(“Sunrise”, “The man who wasn’t there”)

A metade que mereces

Faleceu Danielle Huillet.
O cinema perdeu metade de si mesmo (pois o seu número de inteirezas equivale ao número de grandes cineastas que vivem), Straub perdeu o seu cinema.

Arte interpretativa

1. Não sou particularmente comovido pela capacidade de transfiguração de um actor: a entrega absoluta a uma psicologia distinta da sua, a mimese do corpo do ser representado, o perfeccionismo dos sotaques, os tiques da idade, e etc., e etc. Não quero com isto dizer que desvalorize por completo a componente de composição que está na base da arte interpretativa, mas a verdade é que pouco me importa se o Dustin Hoffman dava um bom autista ou se a Meryl Streep tem inveja do camaleão. Que ganhem os Óscares todos que quiserem.

O que me seduz num actor é a tensão que se estabelece entre a personagem composta e a verdade de quem a está a compor. Seduz-me o corpo do actor (desde o desejo até à repulsa), a dança de cada um dos seus gestos, a música que faz com a voz, a vontade que um olhar sempre ostenta de ser irrepetível, a sua velocidade, a maneira de se sentar (Barbara Stanwyck em “Double Indemnity”!), a maneira de correr, o ritmo do silêncio, o desconforto de um guarda-roupa, as hesitações, as marcas irrefutáveis do seu tempo, a resistência pouco profissional à psicologia da personagem, o medo de explorar algumas emoções, o investimento no beijo, o talento para a nudez, os próprios truques, e etc., e etc.

No fundo, defendo que a validade de um intérprete se mede pela conjugação aparentemente contraditória entre o Método do Actors Studio (o actor não deve fingir mas sentir) e a prática e teoria de Robert Bresson (o actor não deve representar mas ser representado). Pois, no fundo, não são as duas horas de um filme (ou de uma peça de teatro) que nos podem dar a verdade inteira de uma personagem. Por isso, o actor deve ser capaz de criar um número de vazios suficientes para que o espectador os possa completar com a sua própria criatividade ficcional. A personagem não existe de forma absoluta, depende daquilo que todos, em conjunto, nela sabem colocar em fantasma.


2. De modo semelhante, a interpretação de um texto não deve cair na obsessão por descobrir a vontade exacta do escritor, mas conjugar aquilo que de facto está expresso com a possibilidade de sentido que o leitor consegue expandir ou encerrar. O leitor é o ACTOR do texto: dá-lhe corpo, imaginação, prazer e sofrimento.

Promessa

Agora que já tenho idade para ler livros infantis, prometo que nunca lerei os livros da Anita.

segunda-feira, outubro 09, 2006

Mal me quero, bem me quero

Os intelectuais: gente desesperada, sempre preocupada com o sexo dos anjos, incapazes de apreciar as coisas boas da vida, que isto são só dois dias, e a malta tem é de divertir-se.
O povo: tirando os desgraçadinhos, gente que trabalha para não pensar em coisas tristes, sempre em pezinho de dança, o que interessa é ganhar dinheiro e não pensar que a morte é uma bezerra.
Ora eu, que sou snob, escolho um clichê diferente para mim: sou um intelectual com propensão para a esperança, e um Zé Povinho cheio de angústias sofisticadas.
Ora tomem.

Mente sã em corpo são

Dizem-me que há homens tão inflamados que preferem o suave prazer masoquista de verem duas lésbicas a fazerem amor, do que a satisfação do seu próprio corpo no objecto de desejo. Presumo que gostem tanto de mulheres, que sonhem com a total feminização do mundo.
Todos nós queremos ser compreendidos, e procuramos a integração no seio daqueles que connosco são solidários. Mas daí a querermos que o mundo seja feito à imagem e semelhança do nosso desejo, vai uma distância muito grande.
Recentemente, li algures que a Vanessa do triatlo só tinha lido dois livros na vida, e nem se lembrava bem do que lera. Ora, eu de facto já li bastante coisa. E espero ler muito mais. E até acho, com sinceridade, que o conteúdo dos livros é essencial a qualquer comunidade humana que tenha ultrapassado a sua fase da sobrevivência. Mas confesso:
nunca marquei um golo em toda a minha vida, o meu único mérito futebolístico foi ter tirado duas vezes a bola ao melhor jogador da minha turma, no voleibol mandava a bola para o tecto e não para a frente, a única vez que joguei andebol não soube o que fazer quando a bola me veio parar às mãos, tentei jogar squash e usei a cabeça do treinador como bola, no karaté faltava-me o mínimo de agressividade, parti quatro vezes os braços e uma vez a perna a praticar desporto, frequentei meia dúzia de ginásios e abandonei-os sempre ao fim de dois ou três meses, quando nado mariposa pareço mas é uma melga, precisei de trinta e cinco lições práticas de condução, e ainda hoje, com trinta e quatro anos não sei estacionar muito bem, e etc., e etc.
Força Vanessa. Os cultos ladram e a campeã passa.

Militância

Oponho-me convictamente a que as técnicas da narrativa sejam objecto de ensino e respectiva aprendizagem.
O que se ensina na pintura é a mistura dos pigmentos, o tratamento dos materiais, a eficácia dos gestos. De resto, os achados que serviram determinada geração quase sempre se tornam truques que a geração seguinte pretende ultrapassar. Ou seja, não se ensina a pintar.
O que se ensina no cinema é o efeito da escolha das lentes, o uso das fontes de luz, a tecnologia da montagem. Se Orson Welles renovou o modo de filmar em "Citizen Kane", isso deveu-se em parte ao facto do estreante não conhecer o que era considerado possível até então, e por isso ter pedido quimeras ao seu director de fotografia. Gregg Toland, técnico magistral, conseguiu materializar as visões do ingénuo. E assim a imagem-tempo (de Deleuze) atingiu uma primeira maturidade. Ou seja, não se ensina a filmar.
O que se ensina na literatura é a gramática.
De resto, o que temos é de ler ou ouvir aquelas meia-dúzia de ideias que são de facto justas, e esperar que a nossa vida (física e intelectual) nos permita, mais tarde ou mais cedo, entendê-las.

Arte romanesca

Gosto mais de personagens secundárias do que de protagonistas.
Por outras palavras: prefiro o desenho à pintura.

Internet

Um link para outras formas de linkar.

sábado, outubro 07, 2006

"Vampyr" - imagens

O INACTUAL 4

"Vampyr" - Carl Dreyer (1932)

Neste filme hipnótico, demasiado universal para conceder protagonismo ao par amoroso na resolução da sua narrativa, o principal tema é, como sempre em Dreyer, a Palavra. O realizador obriga o seu espectador a passar parte do tempo da projecção a LER um livro (tentativa de filmar o verbo que só será maduramente atingida por Straub/Huillet, Duras, ou Manoel de Oliveira). Toda a salvação narrada depende, aliás, dessa leitura. E neste caso (ao contrário de "La passion de Jeanne d'Arc" ou "Gertrud"), o convívio com a palavra tem mesmo um saldo positivo (como em "Ordet", o verbo permite o triunfo sobre a morte).
A liberdade da sombra perante o corpo que a produz, que deu origem a pelo menos uma das cenas mais belas da História do cinema (o baile de sombras), é por Dreyer associada ao pacto com o diabo. Ora, o autor pretende uma igual libertação do espírito perante o seu cárcere carnal, mas pela via do Bem (a favor de Deus, com Deus). Assim, quando o protagonista se separa de si mesmo, o seu espírito não toma a forma de sombra, mas de TRANSPARÊNCIA. O cineasta não se subjuga a todas as possibilidades técnicas do cinema, mas escolhe aquelas que correspondem à sua vontade de discurso.
A partir do afecto da transparência, o dinamarquês premeia-nos com a câmara subjectiva feita a partir do olhar de um cadáver. O que se torna inquietante nesse momento antológico é que tal câmara subjectiva é radicalmente objectiva: nenhuma emoção, nenhum pensamento, nenhuma psicologia vem deformar aquilo que é dado a ver. Será que a vida após a morte é a total objectividade, a visão pura (a serenidade da transparência)? Ou mostrará Dreyer a sua dúvida ao tornar patente o vazio dessa visão?
Se do pó vieste e ao pó voltarás, talvez essa condição esteja apenas reservada aos ajudantes de vampiro: o vicioso médico morre sufocado sob o pó do moinho. Para os outros, existe a fé na Palavra. E a Palavra é a revolução do mundo.
Acredito na crença de Carl Dreyer.

Confissão 8


As minhas cidades de eleição: apesar de lá não exercer o direito de voto. É que a minha diáspora só funciona na imaginação.
(Venezia, Edinburgh)

Exílios

Quando comecei a realmente escrever poesia, muitas vezes recorria a virtuosismos de rima rígida ou de manutenção de medidas métricas. Sinceramente, penso que foi melhor assim: pois quando ainda não escrevia poesia realmente, os meus excessos de liberdade não eram mais que patologias de adolescente.
No entanto, comecei a notar que a minha evolução me levava para outras paragens, e a verdade é que acabei por desenvolver um ritmo peculiar (oral, quase pontuado, intuitivo) , e uma liberdade de rima mais próxima da improvisação musical que da matemática. Por isso, escrevi num poema que o artista é um perdedor de ciências. Aliás, na medida em que, recentemente, comecei a escrever a poesia em prosa, tenho até receio de que qualquer dia perca a própria ciência do verso. Nada faço, contudo, para travar tais mutações. Quero ficar com a poesia, não com aquilo que lhe é lateral.
Tenho também tentado escrever em inglês. Os poemas lá vão saindo, é claro, mas sinto-me de facto como aquele famoso peixe que vive nas nossas bocas, mas fora da sua água. Talvez o criador seja apenas perdedor de ciências (todas aquelas que trouxemos da infância), e não tenha direito a ganho nenhum. Não citaria o Pessoa com exactidão, mas diria: o meu exílio é a língua portuguesa. Nisto de poesia, convém ter apenas os direitos que o céu permite.

Galeria 4


Mário Cesariny

No escrínio 6

Poema "ditirambo" de Mário Cesariny

Meu maresperantotòtémico
minha màlanimatógrafurriel
minha noivadiagem serpente
meu èliòtrópolipo polar

meu fiambre de sol de roseira
minha musa amiantulipálida
meu lustrefrenado céu grande
minha afiàurora-manhã

minha fôgoécia de estátuas
minha lábioquimia cerrada
minha ponta na terra meu arsgrima

meu diamantermita acordado!


O poema provavelmente derivará da admiração de Cesariny pela obra-prima "Allo" de Benjamin Péret, um cume da litania amorosa surrealista. Aliás, o poeta português pratica a mesma economia de tema (apenas celebrar o ser amado) e uma equivalente simplicidade técnica que, em vez de empobrecerem o texto, o abrem para um infinito de interpretações. Partilho aquilo que alguns versos concretos me sugerem.
minha noivadiagem serpente
Aparentemente, estamos perante um paradoxo (uma noiva está sempre submetida a uma estabilidade doméstica que em tudo se opõe à vadiagem). Mas será mesmo assim? O facto é que o poeta não opõe dois conceitos semelhantes ("noivàdia", por exemplo), mas uma personagem e um modo de acção. E assim se passa do absurdo para uma liberdade poética: uma noiva, para permanecer noiva, tem de submeter o seu amor à vadiagem (à flutuação) que esse sentimento exige.
Chamo também a atenção para a desnecessidade de trabalhar a palavra serpente. A técnica do poema contagia tudo, e permite-nos descortinar, no réptil, um modo de ser pente. O poeta é aquele que de tal modo inflama sentidos, que chega a retirar ecos de toda a matéria que decidiu não trabalhar.
meu fiambre de sol de roseira
Este verso tem algumas consequências evidentes: não só o ser amado é, conflituosamente, alimento e gordura, como este sol não nasce para todos, mas se dedica à situação privada da roseira (os amantes roubam o astro para si mesmos). Mas chamaria também a atenção para o facto deste verso me parecer derivar (conscientemente ou não) da expressão: uma fatia tão fina que se vê o sol por ela. Ora se juntarmos esta magreza translúcida à semelhança de cor entre o fiambre e a rosa (quando cor-de-si-mesma), podemos pensar que tudo isto poderia ser substituído por minha pétala.
minha afiàurora-manhã
Quando afiamos a aurora (quando lhe retiramos o que a impede de ser penetrante), esta torna-se manhã.
minha fôgoécia de estátuas
Entre os sentidos possíveis para a palavra inventada, podemos supor uma Grécia em fogo, declamada por quem não sabe dizer os erres (uma criança; alguém que fala de modo diferente, como o poeta). Assim não só temos a Razão submetida ao fogo da paixão, como se evoca o ser amado através das suas múltiplas, efémeras, expressões (estátuas belas, mas de fogo: cinza permanente).
meu diamantermita acordado!
Há aqui um diamante, sem vida mas precioso (como o dormidor), e uma térmita, trabalhadora, mas minúscula. O drama é, portanto, manter-se acordado durante o dia. Pois para os surrealistas, o que importa é o sonho.

quinta-feira, outubro 05, 2006

Galeria 3

Fiama Hasse Pais Brandão

Citação e direito de resposta

Excerto de uma entrevista ao realizador Peter Greenaway, publicada no nº 20 da revista de cinema "A Grande Ilusão":


P. G. - "É extremamente relevante o facto de eu não ter querido continuar a fazer filmes sobre comboios e nadadores... todos os realizadores de vanguarda fazem filmes sobre comboios e nadadores. Podemos encontrá-los nos anos 10, nos anos 20, nos anos 30... nos anos 50, no cinema americano dos anos 60, nos filmes ingleses actuais, nos anos 70, nos anos 90... sempre os mesmos filmes."
Digo eu: mais do que o desconhecimento que os realizadores de todas as épocas têm da História do Cinema que os precedeu, não haverá uma ligação essencial entre os caminhos da 7ª arte e os caminhos-de-ferro? Não pertencerão os dois à mesma (trans-histórica) Idade?

A adopção de uma lei

Presumo que, quando um legislador for decidir se, em Portugal, um casal homossexual pode recorrer à adopção, se vá fundamentar não em preconceitos (religiosos, burgueses, ou até, no sentido contrário, dos próprios homossexuais), mas em sólidos estudos de psicologia, psiquiatria, e sociologia.
Mas isso não me sossega.
Não tenho problemas em assumir que, em tempos passados, tive de recorrer aos serviços de diversos psicólogos e psiquiatras. E o que eu pude notar, para além da maior ou menor competência imediata de cada um, é que todas essas pessoas baseiam a sua prática em convicções ideológicas extremamente cerradas. Quase poderia dizer que há psis do PP, do PSD, do PS, do PC, e do BE.
Os doutores da mente têm de assumir o pouco que ainda sabem sobre o Homem. E o pouco que sempre saberão.
Aconselho o legislador a seguir o mais recto bom senso, e a perceber as mudanças da sociedade e das expectativas daqueles que a compõem.

Kafka, burocrata de personagens

A uma dada altura, diz-se em "O Castelo" que as decisões oficiais são esquivas como as raparigas. Para além da afirmação da ausência de fronteiras entre vida íntima e civil (ideia já lançada noutro post), a frase coloca em perspectiva as várias personagens femininas do romance.
Na verdade, quase todas as mulheres ali descritas se sujeitam a cumprir os caprichos sexuais dos senhores do Castelo. A estalajadeira sobrevive no presente apenas porque foi amante de Klamm no passado (foi o ponto alto da sua existência). Frieda é submissa a qualquer homem, e a qualquer organização jurídica e burocrática. Olga deseja, ardentemente, a possibilidade de se submeter. No fundo, são o oposto da mulher esquiva, na medida em que aceitam as regras oficiosas daquele mundo.
Pelo contrário, Amalia tomou de facto uma decisão: negou-se a cumprir uma ordem sexual. Esquivou-se. O curioso é que a maldição que vai recair sobre si e sobre a sua família nunca é assumida publicamente. Não há provas de nada, nenhum indício, nenhuma certificação. E daí a dificuldade da resolução. No fundo, o funcionamento civil daquele lugar é tão medíocre que responde a uma decisão oficial com uma consequência oficiosa. Isto não é estranho para nenhum de nós, aqui, e agora.
Aliás, sobre o corpo de Klamm não há certezas. A sua descrição é fundada em boatos contraditórios. A sua aparência é tão desejada e inatingível que não pode ser estável.
Kafka é um burocrata das suas personagens: o Tempo e a psicologia do observador complicam de tal modo o ser observado, que este se torna irrepresentável.
Isto apenas confirma o Casting 4.

Casting 4

A autoridade de uma personagem sai-lhe sempre do corpo. É uma virilidade subtil que faz sabotagem com o género, o olhar de quem finge não se comover, uma voz mais próxima do oboé do que da violeta, e a sensação de que nunca aquela pessoa precisará de recorrer à violência para se afirmar.
Para assumir a personagem Amalia de "O Castelo" de Franz Kafka, eu escolheria a estranha actriz Mónica Calle.

Coisas que me ultrapassam

São todos aqueles que se pautam por uma estrita moral convencional, que desprezam a paixão e armadilham a sua prole com a obediência a todas as convenções sociais, que desalmadamente consumem telenovelas. E de que falam as telenovelas? Da integridade do amor perante todas as falsas regras, da libertação dos filhos do jugo de pais injustos, dos progressos libertários da Civilização... Será o encontro de duas formas de futilidade?
Há coisas que me ultrapassam. Pela direita.

Crónica do espanta-espíritos

O hífen é uma das vulgaridades da gramática. Usámo-lo, a maior parte das vezes, com um utilitarismo preguiçoso. Por exemplo, unindo duas palavras no sacramento de uma função: guarda-chuva. Sugiro, aliás, que nestes casos se substitua o hífen pelo underscore (função rasteira merece rasteiro instrumento): guarda_chuva (até porque nos podemos guardar de tudo, menos do ar do tempo, do clima).
Todavia, a quem lhe custa distinguir ensaio de poesia, resta a possibilidade de polemizar em torno do fino traço. Couve-flor. Uma couve que tem a aparência de uma flor. Ou se quisermos ser mais surreais, um modesto vegetal que é, ao mesmo tempo, uma couve e uma flor. As conjunções copulativas são, no entanto, pouco exactas na descrição da cópula entre as palavras. Pois não conhecemos, no nosso mundo, essa quimera que a língua enuncia. Seríamos assim mais fieis ao nosso entendimento se traduzíssemos o hífen por ou. Pois se a nossa inventividade ainda não materializou esse ser híbrido no real, a nossa imaginação só o pode entender de modo disjuntivo: olhamos para a salada, e pensamos (existencialistas...) que aquilo pode ser ou uma couve ou uma flor. A fusão não passa de ilusão.
E se trocássemos o ou pelo mas? A adversativa viria trazer uma dignidade inesperada. O vegetal é couve, sim, mas também flor! Não uma flor estetizante que venha tirar o vigor à couve, mas uma exaltação da função alimentar, uma celebração da possibilidade da vida.
Falam-me do espanta-espíritos. Um conjunto de hífens delicados que seguram bibliotecas de conchas, luas-de-trazer-por-casa, pequenas internets de barras de metal. Hoje, essa delicadeza apenas serve de motivo de decoração.
No entanto, é precisamente hoje que a nossa interpretação poética do mundo apenas surte efeito através de uma fé lúdica no mito. Não uma fé racional, muito menos cega. Presumo que ninguém supõe que o espanta-espíritos consiga afastar almas penadas, mau-olhado, ou vudus... Pelo contrário, a fé lúdica permite abrir a brecha da disjunção, do ou. Pois podemos querer espantar (afastar, assustar) os espíritos dos falecidos (o Além, quando ainda estamos aquém, é um filme de terror). Mas também podemos entender o espanto de outro modo: podemos querer que os espíritos, que os nossos mortos, nos espantem, nos maravilhem, nos seduzam, regressem até nós com palavras mansas, plenas de sabedoria e imaginação. Afinal, que mais pode o espanta-espíritos: recebe um ventinho timorato, e produz uma música tão simples, tão estelar, é o mais mágico dos instrumentos de percussão (John Cage terá composto para o espanta-espíritos?).
E a memória daqueles que nos deixaram, que outra coisa é senão uma música interpretada pela brisa? Um segredo não-verbal, uma companhia sem matéria.

segunda-feira, outubro 02, 2006

Galeria 2

Carlos de Oliveira

Citação

No PÚBLICO de domingo, 1 de Outubro, encontrei esta magnífica frase de Robert Filliou:

"A arte é aquilo que torna a vida mais interessante do que a arte".

Partilha 4

num só verso, vários blues


o astro a si mesmo se conserva no âmbar da sua luz. não é, portanto, o astronauta, que alguns defendem no calor da discussão.
com o passar do tempo, o ourives das velocidades (deus) move-o com dois pauzinhos repugnados para o quilate da bugiganga. o mercado da delicadeza é um mikado.
e é assim que esta formiga com memória de universo, quando a acometem a mediocridade, o abandono, a solidão da humana porcelana, se torna poeta.


(Poema que será integrado na colectânea "A reconstrução de Nova Orleães". O seu assunto não é o mau poeta.)