quinta-feira, setembro 07, 2006

A sombra

Há muito que os cangalheiros da teoria anunciaram a morte da pintura. Pior: como gatos com cio conceptual, é às pingas que a vão matando, todos os dias, todas as semanas, todos os anos.

Hélas (escrevo o post para usar esta palavra)! A pintura insiste em regressar. Como "Laura", no filme homónimo de Preminger, que todos davam como morta, e que ressurge de repente: vera Eurídice, mas uma Eurídice que não quer a coisa.

Para além de não entender o instinto patológico que leva alguém a passar o óbito a uma paixão, e desconfiando de que todas as mortes anunciadas são meras crises da imaginação (ao Dante, nem o limiar da morte o deteve), o que aqui me apaixona é esta reclamação órfica da pintura que sobrevive a tudo e a todos. Pintura que, mal lhe pomos os olhos em cima (o que equivale sempre a olhar para trás), regressa de imediato ao outro mundo a que toda a pintura pertence.

Rembrandt teria amado este absurdo.

1 comentário:

RS disse...

Também diziam que a arte greco-romana estava morta e foi o que se viu. Muito teimam em matar de morte matada o que não morre de morte morrida...

A presunção não chega para baptizar tanto "beato".

Um abraço,
RS