sábado, setembro 30, 2006

Post efémero

Há quem defenda que a beleza é sempre efémera, e que o trabalho do artista só releva enquanto manifestação da tentativa vaidosa de atingir tal beleza. Assim, as flores da amendoeira, paradigmas do sublime, apesar de apenas durarem alguns dias, teriam um impacto infinitamente superior a qualquer poema, filme, ou quadro.

Em primeiro lugar, parece-me que tal afirmação é produto de alguém que, no fundo, não acredita no Homem. Estamos a um passo de consagrar a superioridade incólume de Deus (seja este o Pai religioso, ou um conceito mais sofisticado).

E depois, está aqui patente uma visão totalitária da beleza. Pois não há tanta gente a quem a flor não traz nenhuma comoção... E aqueles que só amam a flor pintada, e são insensíveis ao modelo real? A beleza é válida porque, precisamente, não gera unanimidade.

Com um aspecto eu concordo: a efemeridade da comoção. Mas é preciso polemizar em torno do conceito efemeridade. Pois é apenas a comoção, a beleza presente, que não tem eternidade. Nada disso tem a ver com o suporte que gera o sublime.

Não há poema digno desse nome que não seja perene. Mas a sua beleza é muito, muitíssimo efémera: dura o tempo breve de uma leitura. De igual modo, a contemplação de uma escultura, a presença num espectáculo teatral, a projecção de um filme. E mesmo quando, ao longo da vida, vamos relendo os textos que no passado nos cativaram, muitas vezes eles se tornam mudos, estéreis, de tal modo nós mudámos nesses lapsos de tempo. Ou vice-versa. Que diferença existe entre ler Baudelaire com vinte anos e regressar ao poeta com meia-idade...

Além disso, cada arte tem a sua especificidade. O cinema é coisa de espectros, é ambição de conquistar o Tempo sem os constrangimentos do mundo físico. Pelo contrário, o teatro é assunto de vivos, urgência presente, corpórea, precisa de arder rápido e de não deixar mais do que cinzas.

Sou solidário com as delicadezas de Christo. Mas também com as palavras de Cristo conservadas no âmbar bíblico. A beleza é, acima de tudo, diversa.

E quem me garante, filosoficamente, que a floração da amendoeira é efémera? Pois não se renova a árvore todos os anos com a sua ornamentação invariável, podendo esse ciclo preencher, ou mesmo transcender, o período inteiro de uma vida humana? As estações do ano podem não ser mais que um sistema controlado de abertura do Livro da Natureza em páginas determinadas. Livro com tendência para a perenidade, para o déjà vu. E se por vezes amamos as flores, outras vezes elas nos deixam indiferentes.
A beleza é um mistério, sim. Que envolve os mares, os céus, os ventos, o sol e o solo, o Homem e suas ilusões.

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