sexta-feira, setembro 08, 2006

Olha para o que eu filmo

Oliveira é um dos meus cineastas favoritos (não, não vou dizer que é o mais velho realizador em actividade...). Tal confissão provoca sempre comichão a quem se irrita por tudo e por tudo. Ora, não é nada, não é nada, mas já aqui arranjei lenha para queimar quem me contrariar.

Para além dos filmes (ou melhor, de acordo com eles), os seus bitaites sobre cinema são sempre inesperados, intuitivos, têm aquele rigor que vem da rebeldia e não da teoria. Quem mais poderia ter defendido, à revelia de todo o pensamento justo sobre a sétima (des)arte, que ao cinema não se deve negar nada, nem mesmo a palavra? A sua coloquialidade em torno do assunto isola-o tanto quanto a estranheza da obra.

Descobri, contudo, uma afirmação na qual não acredito. Oliveira defende, diz e volta a dizer, que para fazer cinema não interessa nada a pessoa do actor, mas apenas a sua capacidade para construir uma personagem. Isto dito pelo homem que se recusa a dirigir os actores na sua busca? Pelo homem que inventou uma Bovarinha que só podia ter o rosto de Leonor Silveira? Que inventou, ao longo dos anos, uma screen persona para Luís Miguel Cintra? Que trabalha sempre com os mesmos actores (será que ele descobriu um bando de paus que não recua perante nenhuma colher)? Que também trabalha com não-profissionais que, manifestamente, não têm o talento da representação, mas se impõem enquanto presenças cheias de ecos?

O cinema de Oliveira é um olhar essencial e sempre pioneiro sobre o que se diz e o que se faz. E o aspecto mais produtivo dessa estética é precisamente o desacordo subtil entre palavra e gesto. Por isso, até na sua filofice o autor encontrou um método de humor irreverente onde adensa o mistério em torno da sua famosa e irredutível perversidade.

E até adivinho (porque sei do que a casa gasta) que no seu "Belle toujours", que ainda não estreou em Portugal, embora Oliveira afirme que o facto de Catherine Deneuve não protagonizar a personagem que a celebrizou no filme de Buñuel não é relevante, algo haverá na encenação que legitime e dê ressonância à mudança de actriz, de corpo.
Mas claro, prognósticos só no fim do jogo.

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