quinta-feira, setembro 21, 2006

O INACTUAL 3

Uma abelha na chuva - Fernando Lopes (1971)

Fernando Lopes adaptou o belo romance de Carlos de Oliveira como se a narrativa fosse o mero fantasma daqueles lugares (interiores e paisagens). Daí que as opções de encenação tivessem o seu passo suspenso na fronteira do incompreensível: hipnotismo assumido (preto e branco, planos longos, lentidão), característica que o cineasta tem vindo a tentar actualizar nos seus filmes recentes; imagens que param (recurso muito pouco explorado na história do cinema); travellings líricos, musicalmente esporádicos; jumpcuts; dissociação entre voz e imagem; repetições na montagem; aproveitamento da expressividade visual dos actores (a tristeza aristocrática de Laura Soveral, ou o mutismo rural de Ruy Furtado); declamação melódica dos diálogos, etc. Tudo características do irreverente cinema da época, que o autor dominou com segurança, liberdade, e alguma idiossincrasia.
Aliás, quando acrescentou à matriz romanesca a referência a Verdi e ao "Amor de Perdição", Fernando Lopes parece ter querido denunciar a contaminação operática daquelas vidas demasiado reais (reais são os corpos, e os lugares) para se poderem perder em ilusões. Assim, o projecto global do filme não foi tanto a tradução da poesia do próprio Carlos de Oliveira para uma narrativa da sua lavra, mas a tentativa política de suspender um tempo falso (porque contaminado pelas diversas ficções que a vida sempre impõe) recorrendo à eclosão da violência.

Dou dois exemplos.
A segunda vez que assistimos à discussão de D. Maria com Álvaro, a banda sonora resume-se ao tique taque de um relógio aparentemente imparável. Mas eis que a música do tempo se suspende quando Álvaro dá uma bofetada na mulher.
Mais eloquente ainda é o efeito do crime que encerra a obra. A verdade é que, se os senhores são acometidos pelo remorso, o destino dos plebeus não é tão generoso: é-lhes servida a própria morte (o fim do tempo individual). Daí que o filme conclua em tom de documento, com as imagens do povo rural agarrado à oração, incapaz de se libertar da mais incompreensível das ficções.

O compromisso do livro de Carlos de Oliveira (que atingiria um muito mais nobre conseguimento com o formidável "Finisterra. Paisagem e povoamento") é aqui reduzido à filigrana, o que curiosamente o torna mais justo, mais contundente do que qualquer realismo. Agora sim, chegámos à poesia: a matéria dá-se a ver, lacerada pelo espírito.

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