sexta-feira, setembro 08, 2006

O INACTUAL 2

"Metropolis" - Fritz Lang (1927)

Sobre este filme algo maldito, devo dizer que não me parece aceitável a acusação de fascismo com que foi rotulado. Compreende-se: a época era de heroísmo revolucionário, qualquer desvio à ortodoxia ideológica causaria demasiada crispação. Para além do insofismável facto de a obra terminar com a solução ingénua de um homem de coração capaz de pacificar a relação entre as classes dirigente e laboral (o que me parece implicar, não uma apologia reaccionária, mas a noção de que aquela sociedade irá, de facto, ser transformada), o certo é que "Metropolis" nos deixa uma ideia desconfortável a que muitos filmes de boas intenções nem perto chegaram: se neste mundo, e neste tempo, se construir um Jardim do Éden, isso implica sempre que uma parte dos Homens tenha de viver num Inferno. Haverá menos fascista do que isto?

O cineasta elabora uma poderosa actualização bíblica. Nem sequer é subtil: há um Pai criador do mundo (a cidade não tem ailleurs), manifestação da insensibilidade do divino; há um Filho, piedoso e mediador que, ao ser crucificado no trabalho numa máquina, grita mesmo "Pai! Pai! Porque...?"; não falta um inventor luciferino, devidamente proscrito; e, claro, Maria...
Ao nível da representação da personagem feminina, pode-se mesmo dizer que Lang ousa a blasfémia. Ao longo da sua obra, o autor filmou uma galeria de mulheres quase sempre medidas pela bitola do anjo ("You only live once") ou do absoluto demónio ("Scarlet Street"), o que, para além da convenção ficcional, revela toda a condição do sexo feminino na sociedade de então. Esta Maria profeta, caridosa e maternal, sofre um processo de degeneração que provoca o aparecimento de um duplo não só malévolo, mas, acima de tudo, sexualmente exuberante (o que, nos assuntos de Nossa Senhora, convenhamos que só pode fazer figura de provocação). Mais do que o tema do duplo, Lang parece ter querido perverter a representação mítica do eterno feminino, mas fá-lo com demasiado ardor. As imagens são demasiado agressivas para serem apenas maniqueístas: é um exorcismo. 
Mas também há um milagre (aqui transferido para o poder da tecnologia - a passagem do rosto de Maria para a máquina Hel); uma aparição (a perseguição de Maria pelo cientista, culminando no alucinante grande-plano em que o rosto deste está cortado, em baixo, por um foco de luz capaz de cegar); uma crucificação (o filho a ser esgotado por uma máquina, já não uma cruz, mas uma circunferência que evoca um relógio, e por extensão, o próprio tempo)... A própria época em que decorre a narrativa, para ser mítica, já não se pode referir ao passado, mas ao futuro.

No entanto, onde na verdade reside o génio do filme (o sentido político-revolucionário da religião terá de esperar por "O evangelho segundo Mateus" de Pasolini para encontrar a expressão justa) é que, enquanto "Der mude Töd" (que, aliás, prefiro) é a tradução de todo um imaginário literário e pictórico para o cinema, "Metropolis" é a tentativa de absoluta reinvenção do imaginário, é a criatividade em estado puro, tão forte, tão eficaz, tão isenta de inibições, que eu suspeito que nunca dela nos iremos libertar. Para tal, contribuiu não só o conhecimento da arquitectura e da cidade modernas (nomeadamente, Nova Iorque), mas também os universos inconciliáveis da magia, da religião e da tecnologia, a estética de contraste luz/sombra, o fascínio do caleidoscópio, a dança - tudo misturado num caldeirão de impureza, de onde resultaram algumas das imagens seminais da História do Cinema.

Termino com uma questão para artistas plásticos e arquitectos: depois de quase um século de evolução tecnológica e estética do nosso mundo, por que razão este filme não perdeu a evidência de ficção científica?

1 comentário:

RS disse...

Pela mesma razão que, quando olhamos uma foto de um edifício de W. Gropius, tirada pouco após a sua construção, os automóveis que aparecem junto dele parecem antiguidades, como se não devessem estar ali.

;)