sexta-feira, setembro 01, 2006

O INACTUAL 1

"D'est" - Chantal Ackerman (1993)

Ackerman não tem receio de exigir muito do espectador. Este documentário não tem voz-off, não tem diálogo, não tem sequer um assunto claro, é lento, letárgico, triste, eventualmente cansativo. Parece uma elegia pela progressiva invernização de um mundo de pessoas em migração. As imagens são quase todas captadas durante a noite ou no crepúsculo da manhã, em espaços conotados com partidas e chegadas. A acção reduz-se à sonolência, ao frio, a uma inactividade que é tudo menos ociosa (isto, apesar de breves momentos luminosos: a brincadeira de algumas crianças, um tasco onde se dança).

O movimento da câmara, obsessivo, é lento, mas não tem a sensualidade onírica de, por exemplo, "L'année dernière à Marienbad". É apenas uma arcada de violoncelo, o caminhar compreensivo de um observador com menos curiosidade documental que empatia humanista.

A referência ao violoncelo não é gratuita. A cena central do filme é a execução integral de um solo neste instrumento - música densa, terrena. A obtenção deste tipo de expressividade não-verbal, não-sentimental, parece ter sido o grande objectivo da cineasta.

E claro, há ainda os retratos simulados (os indivíduos imobilizam-se perante a câmara, como se estivessem a ser fotografados). Se, na verdade, daí resultassem fotografias, o espectador seria tentado a elaborar mil ficções a partir da expressão congelada. Mas como o que está em causa é uma imagem-tempo, o retrato é aplanado pela duração,é desdramatizado, o sentimento é mantido fora de qualquer cliché ficcional, a virtualidade é esticada até ao máximo. De maneira estritamente cinematográfica, Ackerman diz-nos: são seres humanos. Nada mais. Nada menos.

Filme ao mesmo tempo sem pretensiosismo e sem trivialidade. O essencial.

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