domingo, setembro 10, 2006

O encenador de bancada 1

Quando, perto do final da peça "The tempest" de Shakespeare, Miranda (a jovem filha de Próspero que vive isolada numa ilha desde quase bebé) encontra um conjunto de homens, tem a seguinte fala:

- How many goodly creatures are there here!
How beauteous mankind is! O brave new world
That has such people in't!

Nas encenações a que tenho podido assistir, o público reage sempre, a esta tirada, desatando às gargalhadas. Não sei se isso se deve a uma opção perfeitamente consciente da encenação, ou à infantilidade (à falta de distância) do moderno espectador.
Na minha blog-bancada, defendo que estas linhas têm imensa graça, mas não têm piada nenhuma. Shakespeare compôs o seu Próspero como um homem de generosidade tal que tem o poder de não usar o poder - o que é quase desumano. O gesto mais mágico do personagem é, precisamente, o abandono da magia. O próprio Próspero diz que educou Miranda longe da futilidade e do vício a que a humanidade se costuma entregar. Ou seja, tenho quase a certeza que Shakespeare concebeu Miranda como uma pessoa pura (querendo isto apenas dizer: disponível para se integrar na sociedade como se isso fosse uma mítica primeira vez), e não como uma tontinha. Não me parece um momento de comic relief, mas uma das falas-chave de toda a peça.
Recorrer aqui à palhaçada é um truque que não faz justiça ao projecto de Shakespeare. E para quê encenar a peça se não se acredita profundamente no que ela oferece? Reconheço, contudo, que é difícil encontrar o tom justo: qual de nós, neste tempestuoso presente, ainda pode acreditar na candura?

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