sexta-feira, setembro 29, 2006

O ACTUAL 3

"Lady in the water" -M. Night Shyamalan

Dizem-me que, na actualidade, Shyamalan conseguiu recuperar a fórmula mágica de um equilíbrio possível entre espectáculo hollywoodesco e personalidade autoral. Talvez seja verdade, mas exemplos desses sempre existiram.
Penso que será mais justo entendê-lo como um realizador que tenta conjugar as convenções do cinema americano contemporâneo com o universo dos contos infantis. E não me parece que o faça com o humor que os Cahiers du Cinéma lhe atribuem, mas com evidente pretensiosismo. Mas é isso que o torna interessante: Shyamalan acredita de facto no poder dos contos de fadas, e quer usá-los como esqueletos da sua visão do mundo.
Até agora rendidos ao novo prodígio, os críticos desiludiram-se com este "Lady in the water". E eu não percebo porquê. O filme segue, com toda a coerência, a estratégia que o realizador foi construindo nas suas quatro obras anteriores. O que havia para gostar ou não gostar, mantém-se. Todo este cinema cai no ridículo? Talvez, mas haverá filme mais ridículo do que "Unbreakable" (e de qualquer modo, o ridículo pode ter essencialmente a ver com a nossa descrença num determinado tipo de imaginário)? Isto é infantil, ingénuo (ah, o líder que nos virá salvar!...)? Talvez, mas 99% do cinema contemporâneo rege-se pela mesma bitola. Shyamalan é imodesto (a sua personagem é a única que nunca muda de função na fábula, e ainda por cima sabe de antemão que vai ser... mártir)? Mas eu sou espectador, não moralista! O tom é quase sempre insuportável? Claro, mas são os críticos que gostam do misticismo à Spielberg (aliás, este filme é uma rescrita de "E.T."). Há momentos de mau gosto (aqueles gorilas que aparecem no final...)? Isso, para mim, é irrelevante. Shyamalan tem vindo a banalizar a sua maneira de filmar ("The 6th sense" era todo estilo, "Unbreakable" até tinha citações de Tarkovski)? Mas ninguém consegue ser Godard a tempo inteiro...
Na minha opinião, o melhor filme do realizador, até ao momento, é "The village". E aí, o rapaz acertou à grande e à francesa (sim, sim, sou francófilo). A esse filme regressarei no Inactual. Os outros? "The 6th sense" é um mero filme de terror que se leva demasiado a sério (fazia-lhe bem o humor de Tim Burton), "Unbreakable" é um ovni delirante (confesso que simpatizo com a obra, de tal modo ela é diferente de tudo o que se faz em torno dos super-heróis), de "Signs" não gosto (não acredito que a fé se confunda com um argumento muito bem carpinteirado).
Dito isto, "Lady in the water" trabalha dois aspectos muito interessantes. Por um lado, o reenvio da figura feérica para a sua casa funciona de maneira simbólica - não só o personagem de Giamatti se apazigua com o seu lar desfeito no passado (isso é pouco interessante, qualquer crítico diria ao autor que isso já foi feito dezenas de vezes... sinto um cão atrás de mim... ah, é apenas a minha cadela Violeta, a mansidão em canino), como o grupo de pessoas envolvidas na história acaba por entender o sentido do conceito casa (e entender é regressar). A mensagem do filme (mesmo assim: mensagem) é que só existe casa quando ela ultrapassa o individualismo e é vivida em comunidade. Isto faz ponte com "The village": o símbolo é essencial à sociedade.
Por outro lado, apesar do virtuosismo do argumento (Shyamalan mata o crítico porque ele já não acredita na originalidade... mas qual de nós não gostaria de tirar a tosse a um desses senhores?), o filme dá-nos a ver uma SESSÃO DE CASTING. Aí, ele aproxima-se, na verdade, do discurso hitchcockiano sobre o cinema. Ou seja, a originalidade da obra não reside no facto do argumento nos trocar as voltas (os americanos gostam tanto de twists in the plot, que os aconselho a fazerem pela vida nas próximas eleições que por lá houver), mas do facto de quase só corresponder à busca da pessoa certa para executar uma determinada função. E o realizador acredita que igual delicadeza se passa ao nível da vida, e da fé.
De qualquer modo, que fé tão complicada! Cruzes canhoto. Continuo fiel ao despojamento total, contagiante, de Carl Dreyer.

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