segunda-feira, setembro 25, 2006

O ACTUAL 2


World Trade Center - Oliver Stone

Penso que se chama tearjerker: é um filme que pretende arrancar lágrimas ao espectador, esmagando o mínimo esforço de criatividade cinematográfica a favor da encenação codificada daquele tipo de situações que, na vida real, nos comovem de forma profunda e legítima. É o desaparecimento de um filho, a doença de uma mãe, a morte galopante de uma criatura angélica, etc. E eu digo que dessa água já bebi: protegido pela obscuridade da sala de projecção, também me dou à baba e ao ranho, mesmo quando consigo não chorar... Mas não amo um filme por causa de tão cínica manipulação. E muito menos quando as cenas de impacto que se pretende mostrar são decalcadas de uma situação real como o onze de Setembro, situação que a todos espantou pelo absurdo e inesperado da sua tragédia. Muita gente gostará do filme de Stone, não porque o filme se imponha enquanto proposta ética, política, e estética, mas porque não há mãe que consiga não fantasiar o seu doce rebento fatalmente sujeito a tão grave apocalipse.
A proposta do realizador americano poderia ter tomado vários caminhos. Por exemplo, na medida em que os dois polícias permanecem debaixo dos escombros resultantes da queda das Torres do World Trade Center sem saberem o que, de facto, se passou (não estavam sequer informados do embate do segundo avião na Torre Sul), sem terem a noção de que o acidente fora causado por uma agressão criminosa, o filme poderia ter tomado o ponto de vista do homem comum que sofre as grandes catástrofes históricas em plena inocência, sem ter sequer um interesse específico na vida política. Seria, portanto, um retrato do absurdo. Mas para isso era preciso contratar Ésquilo ou Sófocles para escrever o argumento. Stone preferiu aqueles insuportáveis diálogos à Spielberg, aos quais só faltava a referência aos hot dogs e ao baseball. Toda a retórica da boa, velha vida na paz yankee de uma família modelo.
Outra hipótese era construir um discurso político a partir do ponto de vista dos escombros, discurso desesperado, retirado a custo do corpo sofredor.
Nada disso. O que vemos é um melodrama banalíssimo, com uns pozinhos de suspense e acção (salva, não salva?, morre, não morre?), que tanto se poderia referir à tragédia concreta, como a uma ficção qualquer com ambição comercial.
O realizador atinge os limites do execrável ao encenar um Cristo pirosíssimo, e ao enobrecer a figura do marine com visíveis problemas psíquicos, tornando-o incólume missionário ao serviço de uma duvidosa causa americana. Menos subtil, mais irresponsável: não há.
Vi, no entanto, uma cena curiosa: quando a personagem de N. Cage é finalmente retirada dos escombros, a câmara filma esse movimento como se ele estivesse a sair de um caixão. Mas, em assuntos tão graves, eu não quero ver grande cinema, mas cinema justo.
Não há nada mais perigoso do que um suposto rebelde que se emburguesou. Oliver Stone nunca foi grande espada, mas não precisava de exagerar na imbecilidade.
Que não se consiga acrescentar nenhuma imagem ao cinema, isso é normal. Mas que se chegue a diminuir o potencial polémico das imagens reais... isso é obra!

2 comentários:

RS disse...

É assim tão mau?

Abraço,
RS

Tiago disse...

este teu ultimo paragrafo diz tudo. Na verdade, porque raio se lembraram de fazer tal filme?