domingo, setembro 10, 2006

O ACTUAL 1

"Volver" - Pedro Almodóvar

Ao cinema, Pedro Almodóvar veio trazer uma pulsão e uma atmosfera completamente singulares: o kitsch assumido sem complexos, uma frontalidade erótica e escatológica que não cede perante o tabu nem perante o exibicionismo, uma afectividade sem papas na língua que não é dissociável do humor, a valorização da excentricidade, o diálogo popular que nunca se leva a sério, etc. A estratégia já produziu filmes singulares como "Mulheres à beira de um ataque de nervos" ou "Fala com ela".

Mesmo quando, em obras como este "Volver", somos confrontados com uma certa falta de ideias de encenação e a cedência mole a alguns clichés da representação realista (e do universo almodovariano), há sempre rasgos, ao nível do conteúdo, que conseguem abrir alguma polémica. Assim, as propostas que mais me interessaram neste filme foram as seguintes: o feminismo parcialíssimo, descarado (dois machos pedófilos na mesma família? A subtileza não mora aqui...); um certo desprezo saudável pelas instituições de justiça (o autor é cúmplice da desconfiança semi-rural, semi-arcaica, das suas personagens, e acredita no instinto de direito natural que elas demonstram); a definição do amor como a necessidade permanente de regressar (Cassavetes também o sabia) e, acima de tudo, a ideia belíssima de que não é por morrer que alguém se torna fantasma de si mesmo, mas por matar. Bastava este último ponto, para o filme já ter razões para existir.

Sem comentários: