quinta-feira, setembro 28, 2006

No escrínio 5

Início do poema "A virgem da cova" de Vitorino Nemésio:


Límpida e prestes, rosa a nuvem. Toca
Quanto não tem nem orla nem pecíolo.
Apetece meter pedras na boca
Para haver sangue, ao chamá-la Gladíolo.

Não me reconheço na religiosidade genuína de Vitorino Nemésio, mas a sua poesia é-me estranhamente familiar.
Nos primeiros dois versos acima transcritos, o poeta descreve uma aparição que é mais iminente do que propriamente concreta - a Virgem, afinal, está prestes. E, de facto, uma aparição caracteriza-se precisamente pela indistinção entre a presença e a mera ameaça de uma presença. Assim, é esta ambiguidade ontológica que permite que a Imagem entre em contacto com tudo o que não pode ser tocado - ou porque não tem borda, ou porque lhe falta o istmo. O resto é hipérbole comovida.
Todavia, são os dois versos seguintes que me merecem a indistinção entre partilha e escrínio. O autor começa por assumir uma espécie de auto-flagelação (e se esse duvidoso ritual religioso é situado na boca, é tão-somente porque é aí que o verbo se faz carne). No entanto, o martírio faz surgir o sangue. Deste modo, o ofertório do poeta (a chamada, a evocação da Virgem enquanto Flor) perde a secura do pensamento, e ganha a plena dor da vida. Não me espantaria de ver o poeta com um gladíolo real a sair-lhe dos lábios: pois para além da maiúscula com que consagra a flor, o que aqui se dá a ver é nada menos que um milagre. O cor de rosa da nuvem endurece, ou o vermelho do sangue clareia, passos simples para dar à luz uma metáfora, para fazer uma ideia florir. A poesia confunde-se com magia ancestral.
Eu sou ateu. Mas se a religião, de certo modo, me fascina, é porque a entendo como um polémico prolongamento da poesia. Vamos levar Nemésio ao Ratzinger e aos imames.

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