sábado, setembro 23, 2006

No escrínio 4

Poema "Dicionário" de Carlos de Oliveira:

"Lado
a lado
no tosco dicionário
da terra
o suor
palavra rude
que desprende
calor
e as sílabas
do orvalho
a dor
friíssima
da água."

Carlos de Oliveira é um escritor extremamente delicado (chega a atribuir legendas às estrelas). Mas pratica sempre essa qualidade com virilidade tranquila. Aqui, o poeta limita-se a contemplar pequenas gotas, quentes e frias. Parece meditação japonesa, mas não é.

O que aqui se inscreve, de modo enxuto, é o projecto utópico do autor. Pois deseja-se que haja uma paridade equilibrada, justa, entre a dádiva da terra e o labor do agricultor. Tal paridade nunca existiu: a relação entre homem e natureza foi e será desigual. Mas o poeta supõe que a palavra pode alterar a ordem agressiva das coisas. O que, aliás, está lado a lado, não é o suor e o orvalho, mas as palavras que os nomeiam. Assim, é a palavra suor que desprende calor, e a palavra orvalho que se oferece friíssima. E como o poema é sempre revolução, a própria dor do trabalhador passa para a terra.

Que tudo isto se chame dicionário, só significa que o autor quer fornecer um sentido para o trabalho humano, mas fá-lo de forma tão humilde (quase não-poesia) quanto universal. É uma didáctica comovida que redescobre uma das origens da poesia.

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