domingo, setembro 10, 2006

No escrínio 2

"O sítio", poema de Fiama Hasse Pais Brandão:

O relógio polícromo coroado
pela estatueta de um trovador
exangue. O recanto e a aresta
bafejados pela poeira. A
miragem do raio de luz hexa-
gonal. Lugar no tempo.


Para este relógio, podemos olhar de vários pontos de vista (tem várias cores, o próprio raio de luz tem seis lados). Escolho ser cúmplice do trabalho desse trovador que abdica do sangue (da vitalidade que o impediria de se concentrar na miragem) para, em pleno canto, mudar o relógio de mero instrumento que mede o tempo para o próprio tempo em si. Para isso, cada frase do poema tem uma função diferente (tudo, em Fiama, tem o seu peso específico). A primeira é uma mera descrição (apesar da coroa que, nos versos seguintes, lhe vai permitir ser soberana). Por isso é uma frase longa, pouco misteriosa. Mas a frase seguinte já acrescenta um tom que, mais do que corroborar essa descrição, a condena ao abandono (o relógio tem pó; as narrativas humanas, concretas, também o deixaram exangue do ponto de vista funcional). O processo continua com a alucinação trazida pela luz (que longe estamos já do realismo, o poema já mostra mais do que pode). E, por fim, o corolário: já não se trata de um lugar que mostra o tempo, mas um lugar no tempo. Esta última frase é curta: contém apenas o essencial. A verdadeira coroa.

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