sexta-feira, setembro 15, 2006

Jovem, tu és jovem

Não vejo como se possa fazer cinema sobre outra coisa que não o presente. Mas isso não se deve exclusivamente (ou essencialmente...) à selecção dos temas. A própria ideia de abordar um tema hoje, outro amanhã, já sugere que se anda a picar o ponto em todas as causas das quais se pode fazer efeito.
Andava eu numa inanidade monstruosa chamada grupo de jovens (homens de amanhã), e o senhor cura também tinha escrito um livro, com trinta temas, que dava para tudo... Isto para não falar das inesquecíveis aulas de moral, cada uma dedicada a uma polémica, enfim, todos os anos lá tínhamos de falar do aborto, da eutanásia, da toxicodependência, nunca chegando a lado nenhum, e sempre a almejar um 5 na pauta, ou pelo menos um 4 (que era sinal de que não estávamos bêbados). Falar, falavam eles, que eu, apesar de menino bem comportado, desde cedo abortei nessa arte da tertúlia.
O cinema é presente porque o seu material de eleição, os actores, por muito que se esforcem não se livram daquilo que em si trazem do mundo onde não representam (ou onde representam menos...): a língua, o sotaque, a beleza, o corpo, o movimento, a gestualidade, o olhar, a psicologia, a imaginação. Também a tecnologia é sempre presente, a fotografia, os conceitos por trás da cenografia e do guarda-roupa, as ideias sobre montagem, a própria maneira de entender a História ou o Futuro estão submissas à época da filmagem. E um plateau não é uma ilha: a actualidade tenta-o, e há autores infinitamente permeáveis ao bulício do momento.
Daí o ridículo de algumas reconstituições históricas e de alguns filmes de ficção científica, quando os realizadores são ingénuos ao ponto de suporem que conseguem esconder esse Presente que às criações sempre se impõe de modo lapidar.
A feitura de imagens do tempo actual tem tanta urgência como a que existe na relação pão-boca. Mas até para tal é preciso ter talento: Godard foi mestre nisso, Hsiao-Hsien está a tentar fazê-lo agora. De qualquer modo, nunca a vida moderna deve constituir uma obsessão oportunista. Sob pena do cinema começar a não se distinguir de uma espécie de jornalismo de luxo...
Até porque os Baudelaires contam-se pelos dedos de uma mão amputada.

1 comentário:

RS disse...

Estou a ver que o rato (*) voltou na forma de super-rato!

Parabéns!
RS

(*) do computador
- assim esta joke ficará menos private -