Fragmento de "O lago" de Vitorino Nemésio
"Só com nuvens e o vago
Desejo de tornar
A quanto fui, um lago
Cresce do meu vagar.
Cresce e fica de estrela
Posta em seu amplo fundo.
Conhecê-la
Era fazer-me profundo."
A conjunção "e" do primeiro verso não é, na verdade, copulativa. O "vago desejo de tornar a quanto fui" equivale (metaforicamente) às "nuvens". Só que enquanto estas fornecem a água necessária para criar a grande imagem do título, o vago desejo fornece o sentido do texto. Ou seja, o poeta entende o seu ofício criador como uma mistura do "já criado" (o real) com a sublimação de um pensamento. Mais moderna do que a uma primeira leitura poderia parecer, a demiurgia de Nemésio é denunciada enquanto técnica artificial.
Depois, são os dois "vagares". O lago nasce da lentidão do autor. No entanto, por mais lento que o autor se sentisse, a formação natural de um lago seria sempre muito, muito mais lenta. É um paradoxo. O Homem acelera o mundo, mas fá-lo quando se desacelera a si mesmo. As durações só são compatíveis devido à vaga liberdade que existe na poesia.
Uma estrela reflecte-se no lago. Ora, depois de tanta demonstração de poder criador, por que não ascende o poeta ao céu onde a estrela se situa, e fala apenas de a alcançar no lago? É que a imagem central do poema já foi criada, e já não há grande necessidade de maravilhoso. De qualquer modo, o sentido global do resto do poema aponta para que todo o encantamento presente não passe do reflexo de um passado. Daí que o poeta prefira o reflexo ao real. E daí que ele não possa escolher uma ascensão, mas só tenha a hipótese de uma queda - o poema é disfórico. E se recusa mesmo essa queda, talvez seja porque a estrela cuja posse o faria profundo está, afinal, à superfície.
Tal como em Mário de Sá-Carneiro, a "angústia" que se pretende comunicar não é dissociável da luxúria da imaginação. Mas se seguirmos o percurso dessa vitalidade lírica com atenção, veremos que ela está em perfeita sintonia com o conteúdo dos textos. O encantamento que o poeta provoca é um logro que o próprio poema se encarrega de estilhaçar.
1 comentário:
todo o encantamento presente não passe do reflexo de um passado
Por isto, por exemplo, entendo que este espaço depressa se tornará uma referência para os amantes da escrita.
Um abraço,
RS
Enviar um comentário