terça-feira, setembro 05, 2006

Ensaio-em-poema

Há alguns meses decidir começar um livro ecléctico que seria essencialmente constituído por aquilo que na altura chamei de ensaios-em-poema. Afinal, se existem poemas em prosa...

Conforme vou avançando no projecto, apercebo-me de que, para que um ensaio descambe em poema, é necessário que se verifique uma destas duas condições:

a) Se o problema colocado no ensaio for exaustivamente desenvolvido, para que a poesia o acompanhe é preciso estar sempre a forçá-la, é preciso continuamente surpreender o texto com a vontade e a exibição de fazer poesia. É preciso escrevê-la.

b) Em compensação, se o ensaísta for suficientemente livre para ter a poesia dentro de si, e se o seu texto apenas quiser sugerir um problema, sonhar uma questão, a via para a poesia pode ser directa. É o próprio acto de pensar que tem a evidência do poético.

Volto a afirmar que todas as teses estão erradas. Mas, pelo sim, pelo não, forneço um exemplo da segunda atitude retirado da "Ética" de Espinosa:

Quem quer vingar-se das injúrias pelo ódio recíproco vive, por certo, miseravelmente. Mas quem, ao contrário, deseja vencer o ódio pelo amor, esse, por certo, combate alegre e com segurança, resiste tão facilmente a um homem como a vários e carece, menos que ninguém, do auxílio da sorte. Àqueles que ele vence, esses cedem alegremente, não por deficiência, mas por acréscimo de forças; todas estas coisas se seguem de tal modo claramente só das definições de amor e de inteligência que não é preciso demonstrá-las uma por uma.

(Tradução de António Simões)

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