segunda-feira, setembro 18, 2006

Crónica do sabonete

Os traumas não se medem aos palmos. Era eu ainda uma criança de palmo e meio (não louro, no entanto), quando me pregaram uma partida que nunca esqueci. Umas meninas de bem, presumo que precoces vestais da higiene, perguntaram-me se eu tomava banho por prazer ou por obrigação. Respondi com sinceridade: por obrigação! Como aliás, a maior parte das crianças responderia. No entanto, há aspectos da moral que provocam muito mais histeria do que reflexão, aspectos em que nenhuma argumentação é capaz de vencer a crispação tonta dos paladinos da triste figura, e as ditas meninas sentenciaram-me com um lacónico: PORCO! Que o simples facto de eu cumprir fielmente o ritual do banho, apesar do desprazer que me causava, fizesse de mim precisamente o oposto de um porco, nunca seriam capazes de o compreender. Na casa de banho, só o politicamente correcto é permitido.
Adiante. Com o passar dos anos, como é normal, fui ganhando o gosto do banho. Mas ficou-me sempre atravessada na garganta essa obsessão pelo prazer. De vez em quando, dou por mim a procurar sabonetes com perfumes raros, de produção artesanal, ou bonitos de serem olhados, compro esponjas que se distinguem pela macieza, já flirtei com sais, espuma, e etc., e etc. E não resisto mesmo a fazer uma infantil proposta aos Professores Pardais da inovação higiénica. É que já houve o sabão: escorreito, sem poesia, meramente funcional. Depois puxou-se pelas sílabas da coisa, e veio o sabonete: já se apostava no perfume, na cor, na textura, à limpeza uniu-se a fruição. Hoje, toda a gente usa o gel de banho. Ora, como eu dizia, peço aos inventores destas coisas que puxem ainda mais pela palavra e nos apresentem o sabonetino. E o que seria isso, perguntam-me? Um sabonete que já não servisse tanto para livrar o corpo do esterco, mas que estivesse quase só ao serviço do prazer: sabonetino de cores oníricas, perfumes orientais, consistência de mel, com agentes afrodisíacos, a macieza similar à pele do género que nos orienta o sexo, formas sugestivas, tudo muito mil e uma noites...
Dizia a minha avó que a maçã era o sabonete da alma. Uma avó tem sempre razão (quando lha damos). A verdade é que nunca fui grande adepto desse fruto, matador de brancas de neve, iniciador da alta costura, e que ainda por cima se declina em raineta, golden, e outras paroladas do género, mas sempre amei os produtos que dele derivam: tartes, purés, sumos, gelados, rebuçados...

Tudo isto é sobre poesia.
Ao contrário do discurso crítico em Portugal, não me importo nada se a poesia é limpa ou porca (os traumas, os traumas...). A primeira é o mero papel higiénico que impede que se forme o selo de qualidade da segunda.
Gosto da poesia que em si mesma não se contém, que aponta para o seu horizonte de evolução, e nos deixa um travo de paraíso e conhecimento. Gosto da poesia que não distingue entre missão e insatisfação. Gosto de tarte de poesia.

1 comentário:

RS disse...

Venha daí uma dessas tartes.
E com chantili!
:)

Abraço,
RS