sexta-feira, setembro 08, 2006

Crónica do alcaçuz

Gosto de pensadores que sussurram coisas graves ou polémicas. Não gosto dos que afirmam coisas técnicas.
Dizem-me que vivemos numa aldeia global. Presumo que queira isto dizer que o mundo encolheu ao nível da imaginação, que agora está tudo mais perto, podemos ir num ápice a casa da vizinha Amazon, fazer umas comprinhas na mercearia e-bay, vemos o mundo inteiro não mudado na caixa que mudou o mundo, conhecemos o pessoal todo, sabemos os podres (mas quem matou JFK?), vivemos em estado de boato, a borboleta já nem precisa de muito esforço para provocar tempestades, e todos os truz-truz nas portas e portais são agora virtuais. Será isto? Raios de conceitos...
Ainda por cima, sou um desajeitado profissional. E apesar de também querer ser aldeão, nunca acerto com a boçalidade da coisa.

Enfim, também eu já namorisquei as "Mil e uma noites", com moderada convicção. E o que mais gosto em tais páginas são aquelas enumerações de delícias que nos fazem crescer água na boca e tintol no pensamento. Tudo é maravilhoso, rutilante, apetecível, recendente, e a gente embriaga-se assim só com palavras. Ora, um dos alimentos muitas vezes referidos nestas pompas árabes é o alcaçuz. Coisa que, asseguram as personagens, deve ser, no mínimo, celestial. Mas nunca soube o que era, e a que sabia.

Este verão estive em Nova Iorque. Gastei rios de dinheiro, suei as estopinhas, dei o corpo ao manifesto por aquelas ruas feitas para manifestações, vi coisas com piada, com graça, horrorosas, gente gira, maus cheiros, teatro, cinema, museus, jardins, irrita-céus, e não sei que mais. E numa lojinha divertida, que faria a felicidade de qualquer criança, encontrei um chá de egiptian licorice. Comprei pelo Egipto, que licorice eu não sabia o que era. Regressei.

Comecei a beber o chá todas as noites antes de fingir que me ia deitar. E a coisa sabia mesmo bem. Ao fim de algumas infusões, fui ao dicionário tirar as dúvidas: licorice queria dizer... alcaçuz.

Pronto. Está aqui a minha versão da aldeia global: um chá feito de um componente literário, proveniente da mitologia do Egipto (que da terra, eu já não sei), comprado em Nova Iorque, e bebido em Vilar do Paraíso, Portugal... Um verdadeiro diálogo de civilizações! Mas desconfio que não seja bem isto. Devia ter resolvido a transacção por telefone, fax, ou e-mail - isso sim, seria mais global. Provavelmente até existe uma loja aqui no Porto que vende o raio do doce produto...

Mas, enfim, uma vez desajeitado, desajeitado para as outras vezes. O que ganhei? O meu alcaçuz tem um sabor com história e foi estrumado com a boa e velha realidade. Sabe ao mesmo, mas acrescenta-me sabedoria. Sim, sim: é mesmo uma coisa de aldeia...

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