quarta-feira, setembro 13, 2006

Casting 3

Para fechar o capítulo das minhas viagens por outras terras, transmito algumas impressões acerca das possibilidades de casting para "The tempest" de Shakespeare, peça sobre a qual já falei noutro post (recuso-me a chamar posta a isto...)

Vi duas encenações da obra aquando da minha estadia no Reino Unido, uma incluída no Fringe de Edimburgo (companhia Theatre Alba, encenador Charles Nowosielski), a outra levada a cabo pela Royal Shakespeare Company, dirigida por Rupert Goold, em Stratford-upon-Avon (comme il ne faut pas?...).

Em relação ao personagem Gonzalo, devo dizer que preferi a solução encontrada por Nowosielski, na medida em que o actor escolhido tinha uma atitude mais proletária do que o intérprete de Stratford. Explicando melhor, a maior rudeza do primeiro Gonzalo impediu que esta personagem caísse no ridículo (o que é fácil, dado o seu discurso ingénuo), mas já não posso dizer o mesmo do actor da Royal, cujo ar de intelectual praticante colidia com a extrema fragilidade do discurso. No primeiro caso, acreditávamos na veracidade daqueles sonhos (projectos mais do corpo que da inteligência), no segundo, julgaríamos estar perante um velho ensandecido.

Também no teatro Alba encontrei o meu Stephano. Todos conhecemos o vinho e o efeito que ele tem. O actor de Goold, excelente actor sem dúvida, parecia um virtuoso a condescender numa pantomima para inglês ver. O intérprete de Edimburgo, porventura menos profissional, trazia no corpo todos os traços da embriaguez, como se de facto não precisasse de a representar (o actor em questão até pode ser abstémio, isso é irrelevante). O álcool exigirá algo mais que o fingimento?

Todavia, foi na produção da Royal Shakespeare Company (muito superior à outra, de resto), que vi uma Miranda verosímil. O encenador encontrou um equilíbrio, que me pareceu exacto, entre a adolescência da personagem, a sua candura, e a sua selvajaria natural. É preciso tomar em consideração o facto de a jovem ter sido educada numa ilha deserta, longe da sociedade refinada, sem exemplos de feminilidade de onde poderia copiar o requinte dos seus gestos. Uma Miranda demasiado angélica, demasiado bonita, ou que apenas andasse para trás e para diante tentando sugerir sentimentos como os de outra rapariga qualquer da sua idade, essa Miranda não seria credível. Como também não o seria se a opção fosse a de a transformar num Tarzan fêmea. Penso que o tom trabalhado por Goold foi justo.

Quanto a Próspero... é um personagem tão fascinante que sobre ele ainda sei muito pouco.

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