terça-feira, setembro 05, 2006

Casting 2

Tenho uma tese.

E como todas as teses deve estar completamente errada.

O que eu vejo é que os grandes actores dramáticos, quando representam (com toda a técnica do mundo) papéis cómicos, parecem sempre actores a representar. Em compensação, os actores com vocação para a comédia (falo de actores, não de entertainers ou apresentadores de talk shows), quando são presenteados com papéis decentes (mais ou menos sérios, tanto faz), conseguem imprimir à personagem uma densidade e uma verdade que ultrapassam qualquer tique de profissionalismo. Há exemplos recentes, como o do actor Adam Sandler (que costuma fazer filmes inenarráveis), exuberante em "Punch-drunk love", mas também se conhecem paradigmas míticos, como é o caso da actriz Harriet Andersson (uma das minhas intérpretes favoritas), que nos filmes de Bergman passou dos papéis leves de "Mónica e o desejo" e "Sorrisos de uma noite de Verão", para a contundência trágica de obras como "Em busca da verdade" ou "Lágrimas e suspiros".

Ou isto tem alguma coisa a ver com a natureza humana, ou (o que será mais certo) deriva pelo menos da minha percepção da natureza humana.

No papel da colossal estalajadeira de "O castelo" de Kafka, eu veria a actriz Márcia Breia (actualmente habituée da Cornucópia). Por baixo da autoridade da personagem, da sua capacidade estóica para o trabalho, do seu instinto maternal, e dos seus afectos irrisórios, pressinto uma dimensão de anti-heroísmo (e uma rudeza) que só uma actriz cómica saberia dar. No teatro, agigantada pelo guarda-roupa. No cinema, hiperbolizada à maneira de Eisenstein.

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