sábado, setembro 30, 2006

Efémero? Enquadrado.


(Fotografia de Mapplethorpe)

Post efémero

Há quem defenda que a beleza é sempre efémera, e que o trabalho do artista só releva enquanto manifestação da tentativa vaidosa de atingir tal beleza. Assim, as flores da amendoeira, paradigmas do sublime, apesar de apenas durarem alguns dias, teriam um impacto infinitamente superior a qualquer poema, filme, ou quadro.

Em primeiro lugar, parece-me que tal afirmação é produto de alguém que, no fundo, não acredita no Homem. Estamos a um passo de consagrar a superioridade incólume de Deus (seja este o Pai religioso, ou um conceito mais sofisticado).

E depois, está aqui patente uma visão totalitária da beleza. Pois não há tanta gente a quem a flor não traz nenhuma comoção... E aqueles que só amam a flor pintada, e são insensíveis ao modelo real? A beleza é válida porque, precisamente, não gera unanimidade.

Com um aspecto eu concordo: a efemeridade da comoção. Mas é preciso polemizar em torno do conceito efemeridade. Pois é apenas a comoção, a beleza presente, que não tem eternidade. Nada disso tem a ver com o suporte que gera o sublime.

Não há poema digno desse nome que não seja perene. Mas a sua beleza é muito, muitíssimo efémera: dura o tempo breve de uma leitura. De igual modo, a contemplação de uma escultura, a presença num espectáculo teatral, a projecção de um filme. E mesmo quando, ao longo da vida, vamos relendo os textos que no passado nos cativaram, muitas vezes eles se tornam mudos, estéreis, de tal modo nós mudámos nesses lapsos de tempo. Ou vice-versa. Que diferença existe entre ler Baudelaire com vinte anos e regressar ao poeta com meia-idade...

Além disso, cada arte tem a sua especificidade. O cinema é coisa de espectros, é ambição de conquistar o Tempo sem os constrangimentos do mundo físico. Pelo contrário, o teatro é assunto de vivos, urgência presente, corpórea, precisa de arder rápido e de não deixar mais do que cinzas.

Sou solidário com as delicadezas de Christo. Mas também com as palavras de Cristo conservadas no âmbar bíblico. A beleza é, acima de tudo, diversa.

E quem me garante, filosoficamente, que a floração da amendoeira é efémera? Pois não se renova a árvore todos os anos com a sua ornamentação invariável, podendo esse ciclo preencher, ou mesmo transcender, o período inteiro de uma vida humana? As estações do ano podem não ser mais que um sistema controlado de abertura do Livro da Natureza em páginas determinadas. Livro com tendência para a perenidade, para o déjà vu. E se por vezes amamos as flores, outras vezes elas nos deixam indiferentes.
A beleza é um mistério, sim. Que envolve os mares, os céus, os ventos, o sol e o solo, o Homem e suas ilusões.

Post de pescada

Pelos vistos (e ouvidos na TV), existe uma doença psíquica com nome semelhante ao espargo, cuja sintomatologia é, essencialmente, a seguinte: teimosia, timidez e perfeccionismo.
É com má fé que presumo que uma nação de marias-vão-com-as-outras sem vergonha na cara e orgulhosamente trapalhonas é um rebanho de gente sã.
Alguém me diz se em Portugal se cultivam espargos?

Confissão 7



Provavelmente, os dois poetas que mais me fascinaram até ao presente (gostaria mesmo de aprender russo, ou de melhorar o meu francês - caprichos). Curiosamente, o primeiro não gostava muito da poesia do segundo.
Ele há coisas...

(Óssip Mandelstamm, Arthur Rimbaud)

O conspirador de sugestões 2

Sugiro que os estudiosos da câmara escura tentem definir qual é o elemento relevante da fotogenia de um primeiro-ministro que lhe garante, nas fotografias que tira com outros líderes, um indesejado insucesso ou um sucesso indesejado.

sexta-feira, setembro 29, 2006

O ACTUAL 3

"Lady in the water" -M. Night Shyamalan

Dizem-me que, na actualidade, Shyamalan conseguiu recuperar a fórmula mágica de um equilíbrio possível entre espectáculo hollywoodesco e personalidade autoral. Talvez seja verdade, mas exemplos desses sempre existiram.
Penso que será mais justo entendê-lo como um realizador que tenta conjugar as convenções do cinema americano contemporâneo com o universo dos contos infantis. E não me parece que o faça com o humor que os Cahiers du Cinéma lhe atribuem, mas com evidente pretensiosismo. Mas é isso que o torna interessante: Shyamalan acredita de facto no poder dos contos de fadas, e quer usá-los como esqueletos da sua visão do mundo.
Até agora rendidos ao novo prodígio, os críticos desiludiram-se com este "Lady in the water". E eu não percebo porquê. O filme segue, com toda a coerência, a estratégia que o realizador foi construindo nas suas quatro obras anteriores. O que havia para gostar ou não gostar, mantém-se. Todo este cinema cai no ridículo? Talvez, mas haverá filme mais ridículo do que "Unbreakable" (e de qualquer modo, o ridículo pode ter essencialmente a ver com a nossa descrença num determinado tipo de imaginário)? Isto é infantil, ingénuo (ah, o líder que nos virá salvar!...)? Talvez, mas 99% do cinema contemporâneo rege-se pela mesma bitola. Shyamalan é imodesto (a sua personagem é a única que nunca muda de função na fábula, e ainda por cima sabe de antemão que vai ser... mártir)? Mas eu sou espectador, não moralista! O tom é quase sempre insuportável? Claro, mas são os críticos que gostam do misticismo à Spielberg (aliás, este filme é uma rescrita de "E.T."). Há momentos de mau gosto (aqueles gorilas que aparecem no final...)? Isso, para mim, é irrelevante. Shyamalan tem vindo a banalizar a sua maneira de filmar ("The 6th sense" era todo estilo, "Unbreakable" até tinha citações de Tarkovski)? Mas ninguém consegue ser Godard a tempo inteiro...
Na minha opinião, o melhor filme do realizador, até ao momento, é "The village". E aí, o rapaz acertou à grande e à francesa (sim, sim, sou francófilo). A esse filme regressarei no Inactual. Os outros? "The 6th sense" é um mero filme de terror que se leva demasiado a sério (fazia-lhe bem o humor de Tim Burton), "Unbreakable" é um ovni delirante (confesso que simpatizo com a obra, de tal modo ela é diferente de tudo o que se faz em torno dos super-heróis), de "Signs" não gosto (não acredito que a fé se confunda com um argumento muito bem carpinteirado).
Dito isto, "Lady in the water" trabalha dois aspectos muito interessantes. Por um lado, o reenvio da figura feérica para a sua casa funciona de maneira simbólica - não só o personagem de Giamatti se apazigua com o seu lar desfeito no passado (isso é pouco interessante, qualquer crítico diria ao autor que isso já foi feito dezenas de vezes... sinto um cão atrás de mim... ah, é apenas a minha cadela Violeta, a mansidão em canino), como o grupo de pessoas envolvidas na história acaba por entender o sentido do conceito casa (e entender é regressar). A mensagem do filme (mesmo assim: mensagem) é que só existe casa quando ela ultrapassa o individualismo e é vivida em comunidade. Isto faz ponte com "The village": o símbolo é essencial à sociedade.
Por outro lado, apesar do virtuosismo do argumento (Shyamalan mata o crítico porque ele já não acredita na originalidade... mas qual de nós não gostaria de tirar a tosse a um desses senhores?), o filme dá-nos a ver uma SESSÃO DE CASTING. Aí, ele aproxima-se, na verdade, do discurso hitchcockiano sobre o cinema. Ou seja, a originalidade da obra não reside no facto do argumento nos trocar as voltas (os americanos gostam tanto de twists in the plot, que os aconselho a fazerem pela vida nas próximas eleições que por lá houver), mas do facto de quase só corresponder à busca da pessoa certa para executar uma determinada função. E o realizador acredita que igual delicadeza se passa ao nível da vida, e da fé.
De qualquer modo, que fé tão complicada! Cruzes canhoto. Continuo fiel ao despojamento total, contagiante, de Carl Dreyer.

quinta-feira, setembro 28, 2006

Galeria 1

Vitorino Nemésio

No escrínio 5

Início do poema "A virgem da cova" de Vitorino Nemésio:


Límpida e prestes, rosa a nuvem. Toca
Quanto não tem nem orla nem pecíolo.
Apetece meter pedras na boca
Para haver sangue, ao chamá-la Gladíolo.

Não me reconheço na religiosidade genuína de Vitorino Nemésio, mas a sua poesia é-me estranhamente familiar.
Nos primeiros dois versos acima transcritos, o poeta descreve uma aparição que é mais iminente do que propriamente concreta - a Virgem, afinal, está prestes. E, de facto, uma aparição caracteriza-se precisamente pela indistinção entre a presença e a mera ameaça de uma presença. Assim, é esta ambiguidade ontológica que permite que a Imagem entre em contacto com tudo o que não pode ser tocado - ou porque não tem borda, ou porque lhe falta o istmo. O resto é hipérbole comovida.
Todavia, são os dois versos seguintes que me merecem a indistinção entre partilha e escrínio. O autor começa por assumir uma espécie de auto-flagelação (e se esse duvidoso ritual religioso é situado na boca, é tão-somente porque é aí que o verbo se faz carne). No entanto, o martírio faz surgir o sangue. Deste modo, o ofertório do poeta (a chamada, a evocação da Virgem enquanto Flor) perde a secura do pensamento, e ganha a plena dor da vida. Não me espantaria de ver o poeta com um gladíolo real a sair-lhe dos lábios: pois para além da maiúscula com que consagra a flor, o que aqui se dá a ver é nada menos que um milagre. O cor de rosa da nuvem endurece, ou o vermelho do sangue clareia, passos simples para dar à luz uma metáfora, para fazer uma ideia florir. A poesia confunde-se com magia ancestral.
Eu sou ateu. Mas se a religião, de certo modo, me fascina, é porque a entendo como um polémico prolongamento da poesia. Vamos levar Nemésio ao Ratzinger e aos imames.

segunda-feira, setembro 25, 2006

O conspirador de sugestões 1

Àqueles que têm a paixão e a ciência do documentário, sugiro que corram para o Darfur.
As imagens não existem lá em teoria.

My vagabond shoes

Eu viajo para alimentar a imaginação.

Há cidades que já visitei mais de uma vez. Em alguns casos (Veneza, Edimburgo), não só o lugar me estimula a criatividade (chego tão cheio de projectos que aumento logo alguns anos à minha esperança de vida - ao que parece, a última coisa a morrer), como gosto também de lá estar. O meu corpo gosta de passear por ali, os meus sentidos acham sentido em tudo o que lhes é oferecido. Parece que descobri a minha orientação sensorial.
Confesso que Nova Iorque foi uma parcial decepção. Talvez porque toda a gente me contava maravilhas, e eu tenho esta mania infantil de ser do contra. Ou talvez não seja nada disso. O clique não se deu.
No entanto, foi uma decepção parcialmente proustiana. Pois o facto é que a cidade não me saiu do espírito. Talvez por causa da poesia (basta pensar em Lorca ou Cendrars) e do cinema (Scorsese, Woody Allen, mas também o já aqui falado "Metropolis" de Lang) que toma a grande metrópole por referência, talvez porque Nova Iorque exista essencialmente como mito (e o 11 de Setembro é uma variação negra desse poder de agitação), a cidade continua a fornecer combustível ao meu imaginário. A minha Nova Iorque é mais sonhada do que vivida. E essa distância (estimulante, criativa) só pode ser atravessada por sapatos de vagabundo.

(Fotografia de Stieglitz)

O ACTUAL 2


World Trade Center - Oliver Stone

Penso que se chama tearjerker: é um filme que pretende arrancar lágrimas ao espectador, esmagando o mínimo esforço de criatividade cinematográfica a favor da encenação codificada daquele tipo de situações que, na vida real, nos comovem de forma profunda e legítima. É o desaparecimento de um filho, a doença de uma mãe, a morte galopante de uma criatura angélica, etc. E eu digo que dessa água já bebi: protegido pela obscuridade da sala de projecção, também me dou à baba e ao ranho, mesmo quando consigo não chorar... Mas não amo um filme por causa de tão cínica manipulação. E muito menos quando as cenas de impacto que se pretende mostrar são decalcadas de uma situação real como o onze de Setembro, situação que a todos espantou pelo absurdo e inesperado da sua tragédia. Muita gente gostará do filme de Stone, não porque o filme se imponha enquanto proposta ética, política, e estética, mas porque não há mãe que consiga não fantasiar o seu doce rebento fatalmente sujeito a tão grave apocalipse.
A proposta do realizador americano poderia ter tomado vários caminhos. Por exemplo, na medida em que os dois polícias permanecem debaixo dos escombros resultantes da queda das Torres do World Trade Center sem saberem o que, de facto, se passou (não estavam sequer informados do embate do segundo avião na Torre Sul), sem terem a noção de que o acidente fora causado por uma agressão criminosa, o filme poderia ter tomado o ponto de vista do homem comum que sofre as grandes catástrofes históricas em plena inocência, sem ter sequer um interesse específico na vida política. Seria, portanto, um retrato do absurdo. Mas para isso era preciso contratar Ésquilo ou Sófocles para escrever o argumento. Stone preferiu aqueles insuportáveis diálogos à Spielberg, aos quais só faltava a referência aos hot dogs e ao baseball. Toda a retórica da boa, velha vida na paz yankee de uma família modelo.
Outra hipótese era construir um discurso político a partir do ponto de vista dos escombros, discurso desesperado, retirado a custo do corpo sofredor.
Nada disso. O que vemos é um melodrama banalíssimo, com uns pozinhos de suspense e acção (salva, não salva?, morre, não morre?), que tanto se poderia referir à tragédia concreta, como a uma ficção qualquer com ambição comercial.
O realizador atinge os limites do execrável ao encenar um Cristo pirosíssimo, e ao enobrecer a figura do marine com visíveis problemas psíquicos, tornando-o incólume missionário ao serviço de uma duvidosa causa americana. Menos subtil, mais irresponsável: não há.
Vi, no entanto, uma cena curiosa: quando a personagem de N. Cage é finalmente retirada dos escombros, a câmara filma esse movimento como se ele estivesse a sair de um caixão. Mas, em assuntos tão graves, eu não quero ver grande cinema, mas cinema justo.
Não há nada mais perigoso do que um suposto rebelde que se emburguesou. Oliver Stone nunca foi grande espada, mas não precisava de exagerar na imbecilidade.
Que não se consiga acrescentar nenhuma imagem ao cinema, isso é normal. Mas que se chegue a diminuir o potencial polémico das imagens reais... isso é obra!

Palavras trouxe-as o vento

Para quem tem curiosidade sobre o passado das palavras portuguesas que agora usamos, aconselho este fascinante blogue.

sábado, setembro 23, 2006

Dicionário 2


Pelos vistos, existe um discreto peixe que se chama apenas mero.

Simpatizo com este bicharoco que não quer ser mais do que ele mesmo. Mas depois de lhe conhecer a focinheira...

Francamente, há quem nem em plena água saiba baptizar.

No escrínio 4

Poema "Dicionário" de Carlos de Oliveira:

"Lado
a lado
no tosco dicionário
da terra
o suor
palavra rude
que desprende
calor
e as sílabas
do orvalho
a dor
friíssima
da água."

Carlos de Oliveira é um escritor extremamente delicado (chega a atribuir legendas às estrelas). Mas pratica sempre essa qualidade com virilidade tranquila. Aqui, o poeta limita-se a contemplar pequenas gotas, quentes e frias. Parece meditação japonesa, mas não é.

O que aqui se inscreve, de modo enxuto, é o projecto utópico do autor. Pois deseja-se que haja uma paridade equilibrada, justa, entre a dádiva da terra e o labor do agricultor. Tal paridade nunca existiu: a relação entre homem e natureza foi e será desigual. Mas o poeta supõe que a palavra pode alterar a ordem agressiva das coisas. O que, aliás, está lado a lado, não é o suor e o orvalho, mas as palavras que os nomeiam. Assim, é a palavra suor que desprende calor, e a palavra orvalho que se oferece friíssima. E como o poema é sempre revolução, a própria dor do trabalhador passa para a terra.

Que tudo isto se chame dicionário, só significa que o autor quer fornecer um sentido para o trabalho humano, mas fá-lo de forma tão humilde (quase não-poesia) quanto universal. É uma didáctica comovida que redescobre uma das origens da poesia.

Confissão 6



O instrumento (musical?) que menos amo. Contra tudo e contra todos (que é o mesmo que dizer contra nada e ninguém).

A resistência ao papel

Muito se tem falado do imprevisível melhoramento da capacidade de representação de Penélope Cruz no último Almodóvar.

De facto, a sua composição é notável (e ninguém percebe o que a rapariga andou a fazer em Hollywood). Mas o que mais me interessa é que, por baixo da vitalidade (e das emoções à flor da pele) que a personagem insiste em transmitir, o rosto da actriz mantém a sua melancolia quase oculta, cheia de pudor.

É o cinema em conluio (e confronto) com a pintura.

"Uma abelha na chuva" - imagem

quinta-feira, setembro 21, 2006

O INACTUAL 3

Uma abelha na chuva - Fernando Lopes (1971)

Fernando Lopes adaptou o belo romance de Carlos de Oliveira como se a narrativa fosse o mero fantasma daqueles lugares (interiores e paisagens). Daí que as opções de encenação tivessem o seu passo suspenso na fronteira do incompreensível: hipnotismo assumido (preto e branco, planos longos, lentidão), característica que o cineasta tem vindo a tentar actualizar nos seus filmes recentes; imagens que param (recurso muito pouco explorado na história do cinema); travellings líricos, musicalmente esporádicos; jumpcuts; dissociação entre voz e imagem; repetições na montagem; aproveitamento da expressividade visual dos actores (a tristeza aristocrática de Laura Soveral, ou o mutismo rural de Ruy Furtado); declamação melódica dos diálogos, etc. Tudo características do irreverente cinema da época, que o autor dominou com segurança, liberdade, e alguma idiossincrasia.
Aliás, quando acrescentou à matriz romanesca a referência a Verdi e ao "Amor de Perdição", Fernando Lopes parece ter querido denunciar a contaminação operática daquelas vidas demasiado reais (reais são os corpos, e os lugares) para se poderem perder em ilusões. Assim, o projecto global do filme não foi tanto a tradução da poesia do próprio Carlos de Oliveira para uma narrativa da sua lavra, mas a tentativa política de suspender um tempo falso (porque contaminado pelas diversas ficções que a vida sempre impõe) recorrendo à eclosão da violência.

Dou dois exemplos.
A segunda vez que assistimos à discussão de D. Maria com Álvaro, a banda sonora resume-se ao tique taque de um relógio aparentemente imparável. Mas eis que a música do tempo se suspende quando Álvaro dá uma bofetada na mulher.
Mais eloquente ainda é o efeito do crime que encerra a obra. A verdade é que, se os senhores são acometidos pelo remorso, o destino dos plebeus não é tão generoso: é-lhes servida a própria morte (o fim do tempo individual). Daí que o filme conclua em tom de documento, com as imagens do povo rural agarrado à oração, incapaz de se libertar da mais incompreensível das ficções.

O compromisso do livro de Carlos de Oliveira (que atingiria um muito mais nobre conseguimento com o formidável "Finisterra. Paisagem e povoamento") é aqui reduzido à filigrana, o que curiosamente o torna mais justo, mais contundente do que qualquer realismo. Agora sim, chegámos à poesia: a matéria dá-se a ver, lacerada pelo espírito.

Resquícios

Numa conversa com um antigo colega da faculdade, ele falava-me de um escritor qualquer que, nos seus textos, por vezes mencionava termos ou desenvolvia conceitos extraídos da sua formação académica, formação essa que o dito teria repelido a favor de outros interesses.
Resolvi tentar lembrar-me de quais seriam os resquícios do curso de Direito na minha escrita. E concluí que, pelo menos, três ideias jurídicas visitam esporadicamente os meus textos. A saber:

Comoriência - apenas porque é uma ficção proto-lírica que, em certos casos, consagra a simultaneidade da morte dos cônjuges para alguns efeitos legais (andará por aqui o mito do orgasmo simultâneo)

Usucapião - apenas pela crença metafísica de que o Tempo nos concede, de facto, direitos

Direito natural -porque sou fascinado pela "Antígona" (personagem, peça, assunto) de Sófocles

Todos os casos constituem desvios ao funcionamento regular do Direito. O que só confirma o meu desprezo por tal actividade.

A leitura prossegue

O protagonista kafkiano não é nenhum modelo de virtudes. E duvido que haja muitos leitores que se sintam plenamente identificados com ele (em "O Castelo", as dúvidas de Frieda quanto à rectidão moral de K. parecem perfeitamente legítimas).
Diria que é um personagem cuja perplexidade é bastante menor do que a que qualquer um de nós teria em idênticas situações (continua a pensar que é possível devolver alguma normalidade ao pesadelo, nem que este tenha a forma de um insecto), sendo essa falta compensada com uma combatividade não muito lúcida. Não é um herói hitchcockiano. Para Kafka, o Homem já está parcialmente contaminado pelas próprias regras da suspensão onírica.
Já agora, como não entender Klamm, do romance acima citado, à luz do contra-luz?

segunda-feira, setembro 18, 2006

Crónica do sabonete

Os traumas não se medem aos palmos. Era eu ainda uma criança de palmo e meio (não louro, no entanto), quando me pregaram uma partida que nunca esqueci. Umas meninas de bem, presumo que precoces vestais da higiene, perguntaram-me se eu tomava banho por prazer ou por obrigação. Respondi com sinceridade: por obrigação! Como aliás, a maior parte das crianças responderia. No entanto, há aspectos da moral que provocam muito mais histeria do que reflexão, aspectos em que nenhuma argumentação é capaz de vencer a crispação tonta dos paladinos da triste figura, e as ditas meninas sentenciaram-me com um lacónico: PORCO! Que o simples facto de eu cumprir fielmente o ritual do banho, apesar do desprazer que me causava, fizesse de mim precisamente o oposto de um porco, nunca seriam capazes de o compreender. Na casa de banho, só o politicamente correcto é permitido.
Adiante. Com o passar dos anos, como é normal, fui ganhando o gosto do banho. Mas ficou-me sempre atravessada na garganta essa obsessão pelo prazer. De vez em quando, dou por mim a procurar sabonetes com perfumes raros, de produção artesanal, ou bonitos de serem olhados, compro esponjas que se distinguem pela macieza, já flirtei com sais, espuma, e etc., e etc. E não resisto mesmo a fazer uma infantil proposta aos Professores Pardais da inovação higiénica. É que já houve o sabão: escorreito, sem poesia, meramente funcional. Depois puxou-se pelas sílabas da coisa, e veio o sabonete: já se apostava no perfume, na cor, na textura, à limpeza uniu-se a fruição. Hoje, toda a gente usa o gel de banho. Ora, como eu dizia, peço aos inventores destas coisas que puxem ainda mais pela palavra e nos apresentem o sabonetino. E o que seria isso, perguntam-me? Um sabonete que já não servisse tanto para livrar o corpo do esterco, mas que estivesse quase só ao serviço do prazer: sabonetino de cores oníricas, perfumes orientais, consistência de mel, com agentes afrodisíacos, a macieza similar à pele do género que nos orienta o sexo, formas sugestivas, tudo muito mil e uma noites...
Dizia a minha avó que a maçã era o sabonete da alma. Uma avó tem sempre razão (quando lha damos). A verdade é que nunca fui grande adepto desse fruto, matador de brancas de neve, iniciador da alta costura, e que ainda por cima se declina em raineta, golden, e outras paroladas do género, mas sempre amei os produtos que dele derivam: tartes, purés, sumos, gelados, rebuçados...

Tudo isto é sobre poesia.
Ao contrário do discurso crítico em Portugal, não me importo nada se a poesia é limpa ou porca (os traumas, os traumas...). A primeira é o mero papel higiénico que impede que se forme o selo de qualidade da segunda.
Gosto da poesia que em si mesma não se contém, que aponta para o seu horizonte de evolução, e nos deixa um travo de paraíso e conhecimento. Gosto da poesia que não distingue entre missão e insatisfação. Gosto de tarte de poesia.

A oitava e meia arte

Dizem-me que é preciso escolher entre Vida e Criação. Estas palavras não precisam de maiúsculas, mas quem mas diz, pronuncia-as assim. Parece que, afinal, a Vida tem um conteúdo perfeitamente identificável.
Viver é ter o coração a bater, o oxigénio a circular, e os neurónios a comandar estas pacíficas tropas. Podemos, isso sim, falar de modos de viver. Aí já temos matéria para um debate.
Quanto a mim, penso que criar é a melhor maneira de viver.
O grande vivente, aliás, é tão-somente aquele que consegue trazer um significado à vida.
A utopia de Buster Keaton (a arte do enquadramento).

Lianor

No Centro de Arte Moderna, da Gulbenkian, uma turista resolveu tirar os sapatos, provavelmente por não se sentir segura sobre os seus tacões.
De imediato surgiu um funcionário zeloso que ordenou a reunião entre pé e sapato (já se sabe, a Deus o que é de César...). Porquê? Não porque o chão sujasse os pés à senhora, nem porque os pés sujassem o chão. Nem mesmo por causa do imemorial dilema do chulé. O problema era a falta de respeito.
 
O Ocidente, moderníssimo, também tem as suas burkas.

Homenagem a Craigie Horsfield

A passagem da arte figurativa para a abstracção pode, afinal, não ter sido uma evolução, nem mesmo a descoberta da essência pictórica, mas uma pequena deslocação do ponto de vista (da objectiva): do rosto para as nuvens, de uma garrafa para o fluxo da água corrente...
Para além disso, existe a focagem: mais do que um cuidado técnico, mais do que uma opção expressiva, é um verdadeiro instrumento de pensamento. Criar é seleccionar focagens e desfocagens.
A fotografia não veio substituir a pintura, nem é o seu parente pobre. Veio explicá-la, ou melhor dizendo, ampliá-la (blow up).

(Fotografia do homenageado)

Confissão 5


Nem às paredes confesso que gosto de graffiti.

(Quadro de Basquiat)

sexta-feira, setembro 15, 2006

Jovem, tu és jovem

Não vejo como se possa fazer cinema sobre outra coisa que não o presente. Mas isso não se deve exclusivamente (ou essencialmente...) à selecção dos temas. A própria ideia de abordar um tema hoje, outro amanhã, já sugere que se anda a picar o ponto em todas as causas das quais se pode fazer efeito.
Andava eu numa inanidade monstruosa chamada grupo de jovens (homens de amanhã), e o senhor cura também tinha escrito um livro, com trinta temas, que dava para tudo... Isto para não falar das inesquecíveis aulas de moral, cada uma dedicada a uma polémica, enfim, todos os anos lá tínhamos de falar do aborto, da eutanásia, da toxicodependência, nunca chegando a lado nenhum, e sempre a almejar um 5 na pauta, ou pelo menos um 4 (que era sinal de que não estávamos bêbados). Falar, falavam eles, que eu, apesar de menino bem comportado, desde cedo abortei nessa arte da tertúlia.
O cinema é presente porque o seu material de eleição, os actores, por muito que se esforcem não se livram daquilo que em si trazem do mundo onde não representam (ou onde representam menos...): a língua, o sotaque, a beleza, o corpo, o movimento, a gestualidade, o olhar, a psicologia, a imaginação. Também a tecnologia é sempre presente, a fotografia, os conceitos por trás da cenografia e do guarda-roupa, as ideias sobre montagem, a própria maneira de entender a História ou o Futuro estão submissas à época da filmagem. E um plateau não é uma ilha: a actualidade tenta-o, e há autores infinitamente permeáveis ao bulício do momento.
Daí o ridículo de algumas reconstituições históricas e de alguns filmes de ficção científica, quando os realizadores são ingénuos ao ponto de suporem que conseguem esconder esse Presente que às criações sempre se impõe de modo lapidar.
A feitura de imagens do tempo actual tem tanta urgência como a que existe na relação pão-boca. Mas até para tal é preciso ter talento: Godard foi mestre nisso, Hsiao-Hsien está a tentar fazê-lo agora. De qualquer modo, nunca a vida moderna deve constituir uma obsessão oportunista. Sob pena do cinema começar a não se distinguir de uma espécie de jornalismo de luxo...
Até porque os Baudelaires contam-se pelos dedos de uma mão amputada.

quinta-feira, setembro 14, 2006

No escrínio 3

Poema "Túnel", de A. M. Pires Cabral:

E então, de quando em quando,
no meio da escuridão,
a redundância de um túnel.

Deus, por onde andava eu
quando a luz foi repartida?



O túnel, por onde passa o comboio polissémico do poeta, é redundante porque cria escuridão onde já havia escuridão. Mas, na verdade, tem algum significado: é uma arquitectura protectora, é também (ou alternativamente) uma arquitectura sufocante, e sofre do famoso mito da luz ao fundo do túnel, que tanto indicia a entrada no Além como a obtenção de uma Resposta.
Quer-me parecer que este túnel ocasional equivale, neste poema, à ideia de Deus. Na verdade, o poeta só se lembra de inquirir o seu Criador quando entra naquele espaço. E que conhecemos nós de mais redundante que Deus? Pois se Ele existe, existe enquanto ontologia que não se distingue do resto do Universo. E no entanto, sentimo-lo protector, também (ou alternativamente) sufocante, e sabemo-lo Senhor do mundo que (não) há após a morte e das Grandes Respostas que se mantêm obscuras na grande viagem da nossa vida.
No túnel, pode o poeta fazer uma pergunta. A questão é existencial, mas parece-me menos relevante do que o desejo que nela está implícito de que, no fundo do túnel, haja uma Luz.

Algumas notas sobre "O Castelo"

Um dos aspectos em que Kafka insiste no seu romance é a impossibilidade de intimidade. Nos momentos em que K., personagem perplexa mas combativa como todos nós, desejaria, ou melhor, precisaria de estar sozinho, de criar uma sensação de lar, os espaços são continuamente invadidos por criadas, ajudantes, estalajadeiras, professores, crianças... K. não consegue ter um quarto, não tem possibilidade de ser ele mesmo a não ser quando dorme.
Ora, a separação entre sono e quarto provoca um hiato onde se aloja o pesadelo da realidade.
Pois é isso mesmo que acontece. Kafka descreve o mundo profissional, oficial, público, como não sendo mais do que a total perversão (e não a mera metamorfose) dos esquemas psíquicos da infância. Não esqueçamos que os professores da escola da aldeia, a uma dada altura repreendem K. como fariam com um aluno, e chega a falar-se de punição física.
K. regressa continuamente à infância. Mas sem precisar de grande fantasia. Daí o papel importante daqueles momentos em que o calor (do trenó que espera Klamm na estalagem dos senhores, na sala de aula depois de roubados os pedaços de lenha) protege do clima frio à maneira de um berço ou de um ventre. A reacção de K. não é a de um adulto que se aquece, mas confunde-se com uma regressão.
Por vezes, a pulsão infantil é tanta, que o mundo de infinitas hierarquias e burocracias é evocado à maneira de um poema. Não por cedência do autor ao lirismo (que aqui seria injustificável), mas porque a monstruosidade acaba por só ser suportável por uma percepção ingénua.

Exemplo:
Nos telefones locais, ouvimos estas chamadas ininterruptas como um sussurro, como alguém a cantar, o senhor decerto também terá ouvido. Pois bem, daquilo que os nossos telefones locais transmitem, só este sussurro e este canto são de confiança, tudo o mais é enganador.

(Tradução: Isabel Castro Silva)

quarta-feira, setembro 13, 2006

Confissão 4

O cinema que me preenche.
E, no entanto, não sou crente, dou-me pouco à fé, e não muito à nostalgia. Mas perco-me nos fascínios generosos.
("Nostalghia" - Andrei Tarkovsky)

Casting 3

Para fechar o capítulo das minhas viagens por outras terras, transmito algumas impressões acerca das possibilidades de casting para "The tempest" de Shakespeare, peça sobre a qual já falei noutro post (recuso-me a chamar posta a isto...)

Vi duas encenações da obra aquando da minha estadia no Reino Unido, uma incluída no Fringe de Edimburgo (companhia Theatre Alba, encenador Charles Nowosielski), a outra levada a cabo pela Royal Shakespeare Company, dirigida por Rupert Goold, em Stratford-upon-Avon (comme il ne faut pas?...).

Em relação ao personagem Gonzalo, devo dizer que preferi a solução encontrada por Nowosielski, na medida em que o actor escolhido tinha uma atitude mais proletária do que o intérprete de Stratford. Explicando melhor, a maior rudeza do primeiro Gonzalo impediu que esta personagem caísse no ridículo (o que é fácil, dado o seu discurso ingénuo), mas já não posso dizer o mesmo do actor da Royal, cujo ar de intelectual praticante colidia com a extrema fragilidade do discurso. No primeiro caso, acreditávamos na veracidade daqueles sonhos (projectos mais do corpo que da inteligência), no segundo, julgaríamos estar perante um velho ensandecido.

Também no teatro Alba encontrei o meu Stephano. Todos conhecemos o vinho e o efeito que ele tem. O actor de Goold, excelente actor sem dúvida, parecia um virtuoso a condescender numa pantomima para inglês ver. O intérprete de Edimburgo, porventura menos profissional, trazia no corpo todos os traços da embriaguez, como se de facto não precisasse de a representar (o actor em questão até pode ser abstémio, isso é irrelevante). O álcool exigirá algo mais que o fingimento?

Todavia, foi na produção da Royal Shakespeare Company (muito superior à outra, de resto), que vi uma Miranda verosímil. O encenador encontrou um equilíbrio, que me pareceu exacto, entre a adolescência da personagem, a sua candura, e a sua selvajaria natural. É preciso tomar em consideração o facto de a jovem ter sido educada numa ilha deserta, longe da sociedade refinada, sem exemplos de feminilidade de onde poderia copiar o requinte dos seus gestos. Uma Miranda demasiado angélica, demasiado bonita, ou que apenas andasse para trás e para diante tentando sugerir sentimentos como os de outra rapariga qualquer da sua idade, essa Miranda não seria credível. Como também não o seria se a opção fosse a de a transformar num Tarzan fêmea. Penso que o tom trabalhado por Goold foi justo.

Quanto a Próspero... é um personagem tão fascinante que sobre ele ainda sei muito pouco.

Partilha 3

a montanha


foguetão desactivado
por ser demasiado antigo
porém mantém-se apontado
para o céu
como um castigo


(Isto é um excerto do poema "a montanha", pertencente ao livro "descoberta seguido de invenção", já terminado, mas ainda não publicado.
Assumo que, na primeira colectânea de poemas que publiquei, havia dois ou três textos dolorosos que se reduziam a clichés da tradição lírica, nos quais deixei de me rever. Obviamente. Pretendo exilá-los da recolha, na eventualidade de uma reedição. Ora, este pedaço de poema que aqui partilho parece-me genuinamente doloroso...)

Divertimento

Segundo conta Danielle Darrieux, Max Ophüls (na foto) era um cavalheiro charmoso que tratava os seus actores de forma exemplar. A breve mitologia do cinema conta também que Cecil B. de Mille era um déspota irascível, sempre aos gritos com as pessoas que, por gentileza ou necessidade, trabalhavam para si. Conta, por fim, o lugar-comum, que o grande artista é sempre um temperamental filho da mãe que em tudo se opõe às propostas mais ou menos generosas da sua criação. Ora, na minha pouco modesta opinião, o cinema de Ophüls é mil vezes superior ao de Cecil B. de Mille.

Caso para dizer que, por vezes, há justiça neste mundo.

segunda-feira, setembro 11, 2006

11 de Setembro

Convém regressarmos sempre àqueles homens que fizeram, da ética, o centro motor das suas vidas.
Tento analisar o que me interessa em Bento de Espinosa.

A sua grande obra moral está cheia de disparates sexuais/sentimentais (apesar de não saber se podemos chamar puritano a alguém que quer apenas racionalizar), e de ingenuidades quanto ao verdadeiro funcionamento psíquico do Homem. Mas isto é fruto da época em que o pensador viveu, e nem outra coisa poderíamos esperar do século XVII (Espinosa já foi maldito o bastante).
Há também uma espécie de confiança cega na lógica, o que, em certos passos pode levar o leitor a reagir com acusações de delírio (logo a primeira definição?), de sofisma, ou a aceitá-los apenas enquanto enérgicas polémicas que incitam a pensar.

O que me faz então solidário de Espinosa?
Em primeiro lugar, a sua defesa intransigente da urgência do pensamento, do esforço de conhecimento adequado de todas as situações, para que as acções não sejam levianas. Mesmo que a nossa adequação não corresponda à do filósofo, temos de seguir o exemplo da sua resistência irreverente, da sua vontade de ver.
Toda a sua ética é construída para promover a alegria, ou seja, para conservar Alma e Corpo. No seu vocabulário, alegria significa mesmo acção. Espinosa revoltou-se contra as morais religiosas que derivam do espírito de sacrifício, do entrave à vida. A sua pulsão é a oposta.
O pensador manifesta também um claro desprezo pela convivência intelectual com o vício, com a melancolia. Não se trata de fugir ao confronto com os assuntos dolorosos, mas de incitar o Homem a construir a sua vida em torno da positividade (um prenúncio de Nietzsche?).
Há ainda a defesa de que a ética serve uma comunidade, e nada tem a ver com eremitérios ou clausuras.
E claro, o mais importante, o genial entendimento de Deus como uma substância imanente, nem criador, nem castigador, uma espécie de absoluto ao qual todos pertencemos. Neste Deus, até eu acredito (aconselharia o mesmo a muita gente). E pergunto se, em vez de uma imanência de mecânica racional, não a poderemos entender de forma sensual, lírica, ou até cómica?

Não se pode fazer um minuto de silêncio, porque ainda não conhecemos a cronologia de tão grande dor.

Projecto de romance de ficção científica

E eis que, num muito distante 2007 d.c. (esperança de vida: umas fresquinhas oitenta meias-estações), o crédito à habitação já podia ser alargado até aos 328 anos...

E vice-versa?

Em Fiama, tudo é rigor. Em Nemésio, tudo fascínio.

domingo, setembro 10, 2006

Confissão 3


O meu tipo de imagem, enquanto espectador: não necessariamente, a imagem que eu faria...

(Nunca vi este "O último dos homens", de Murnau)

Continuando a ler "O Castelo"

As personagens do incompleto romance de Kafka, quando conversam entre si, insistem em gastar o tempo do diálogo a aclarar ideias, cada uma refutando o que a outra diz, corrigindo-a, limando-a, rescrevendo-a, como se a realidade à qual se referem fosse impossível de discernir com simplicidade.
Ora, quanto mais falam, quanto mais tentam ser claras, menos o mundo se torna nítido. Como se este fosse uma nódoa inexpugnável que nenhum algodão consegue enganar.

Basta ler o capítulo: Em casa do regedor.

Fahrenheit 451

Sou um incondicional apreciador de Franz Kafka. Mas não o admiro por ter deixado, em testamento, instruções para os seus manuscritos serem destruídos.

Francamente, nunca gostei de grandes gestos, a não ser que grandes circunstâncias o exijam. E mesmo nesse caso... (eu defendo que Galileu salvou a ciência porque abjurou, ou seja, porque indirectamente a colocou ao serviço da vida).
Por outro lado, quando um autor quer destruir os textos que considera imperfeitos, está a ser mais vaidoso do que aquele que sonha com a sobrevivência da obra. No fundo, acha o seu potencial demasiado grande para a Humanidade, e para o Tempo.

Ainda por cima, se neste caso a vontade se tivesse cumprido, isso teria sido uma pura, simples, redonda estupidez.

O encenador de bancada 1

Quando, perto do final da peça "The tempest" de Shakespeare, Miranda (a jovem filha de Próspero que vive isolada numa ilha desde quase bebé) encontra um conjunto de homens, tem a seguinte fala:

- How many goodly creatures are there here!
How beauteous mankind is! O brave new world
That has such people in't!

Nas encenações a que tenho podido assistir, o público reage sempre, a esta tirada, desatando às gargalhadas. Não sei se isso se deve a uma opção perfeitamente consciente da encenação, ou à infantilidade (à falta de distância) do moderno espectador.
Na minha blog-bancada, defendo que estas linhas têm imensa graça, mas não têm piada nenhuma. Shakespeare compôs o seu Próspero como um homem de generosidade tal que tem o poder de não usar o poder - o que é quase desumano. O gesto mais mágico do personagem é, precisamente, o abandono da magia. O próprio Próspero diz que educou Miranda longe da futilidade e do vício a que a humanidade se costuma entregar. Ou seja, tenho quase a certeza que Shakespeare concebeu Miranda como uma pessoa pura (querendo isto apenas dizer: disponível para se integrar na sociedade como se isso fosse uma mítica primeira vez), e não como uma tontinha. Não me parece um momento de comic relief, mas uma das falas-chave de toda a peça.
Recorrer aqui à palhaçada é um truque que não faz justiça ao projecto de Shakespeare. E para quê encenar a peça se não se acredita profundamente no que ela oferece? Reconheço, contudo, que é difícil encontrar o tom justo: qual de nós, neste tempestuoso presente, ainda pode acreditar na candura?

No escrínio 2

"O sítio", poema de Fiama Hasse Pais Brandão:

O relógio polícromo coroado
pela estatueta de um trovador
exangue. O recanto e a aresta
bafejados pela poeira. A
miragem do raio de luz hexa-
gonal. Lugar no tempo.


Para este relógio, podemos olhar de vários pontos de vista (tem várias cores, o próprio raio de luz tem seis lados). Escolho ser cúmplice do trabalho desse trovador que abdica do sangue (da vitalidade que o impediria de se concentrar na miragem) para, em pleno canto, mudar o relógio de mero instrumento que mede o tempo para o próprio tempo em si. Para isso, cada frase do poema tem uma função diferente (tudo, em Fiama, tem o seu peso específico). A primeira é uma mera descrição (apesar da coroa que, nos versos seguintes, lhe vai permitir ser soberana). Por isso é uma frase longa, pouco misteriosa. Mas a frase seguinte já acrescenta um tom que, mais do que corroborar essa descrição, a condena ao abandono (o relógio tem pó; as narrativas humanas, concretas, também o deixaram exangue do ponto de vista funcional). O processo continua com a alucinação trazida pela luz (que longe estamos já do realismo, o poema já mostra mais do que pode). E, por fim, o corolário: já não se trata de um lugar que mostra o tempo, mas um lugar no tempo. Esta última frase é curta: contém apenas o essencial. A verdadeira coroa.

O ACTUAL 1

"Volver" - Pedro Almodóvar

Ao cinema, Pedro Almodóvar veio trazer uma pulsão e uma atmosfera completamente singulares: o kitsch assumido sem complexos, uma frontalidade erótica e escatológica que não cede perante o tabu nem perante o exibicionismo, uma afectividade sem papas na língua que não é dissociável do humor, a valorização da excentricidade, o diálogo popular que nunca se leva a sério, etc. A estratégia já produziu filmes singulares como "Mulheres à beira de um ataque de nervos" ou "Fala com ela".

Mesmo quando, em obras como este "Volver", somos confrontados com uma certa falta de ideias de encenação e a cedência mole a alguns clichés da representação realista (e do universo almodovariano), há sempre rasgos, ao nível do conteúdo, que conseguem abrir alguma polémica. Assim, as propostas que mais me interessaram neste filme foram as seguintes: o feminismo parcialíssimo, descarado (dois machos pedófilos na mesma família? A subtileza não mora aqui...); um certo desprezo saudável pelas instituições de justiça (o autor é cúmplice da desconfiança semi-rural, semi-arcaica, das suas personagens, e acredita no instinto de direito natural que elas demonstram); a definição do amor como a necessidade permanente de regressar (Cassavetes também o sabia) e, acima de tudo, a ideia belíssima de que não é por morrer que alguém se torna fantasma de si mesmo, mas por matar. Bastava este último ponto, para o filme já ter razões para existir.

sexta-feira, setembro 08, 2006

Crónica do alcaçuz

Gosto de pensadores que sussurram coisas graves ou polémicas. Não gosto dos que afirmam coisas técnicas.
Dizem-me que vivemos numa aldeia global. Presumo que queira isto dizer que o mundo encolheu ao nível da imaginação, que agora está tudo mais perto, podemos ir num ápice a casa da vizinha Amazon, fazer umas comprinhas na mercearia e-bay, vemos o mundo inteiro não mudado na caixa que mudou o mundo, conhecemos o pessoal todo, sabemos os podres (mas quem matou JFK?), vivemos em estado de boato, a borboleta já nem precisa de muito esforço para provocar tempestades, e todos os truz-truz nas portas e portais são agora virtuais. Será isto? Raios de conceitos...
Ainda por cima, sou um desajeitado profissional. E apesar de também querer ser aldeão, nunca acerto com a boçalidade da coisa.

Enfim, também eu já namorisquei as "Mil e uma noites", com moderada convicção. E o que mais gosto em tais páginas são aquelas enumerações de delícias que nos fazem crescer água na boca e tintol no pensamento. Tudo é maravilhoso, rutilante, apetecível, recendente, e a gente embriaga-se assim só com palavras. Ora, um dos alimentos muitas vezes referidos nestas pompas árabes é o alcaçuz. Coisa que, asseguram as personagens, deve ser, no mínimo, celestial. Mas nunca soube o que era, e a que sabia.

Este verão estive em Nova Iorque. Gastei rios de dinheiro, suei as estopinhas, dei o corpo ao manifesto por aquelas ruas feitas para manifestações, vi coisas com piada, com graça, horrorosas, gente gira, maus cheiros, teatro, cinema, museus, jardins, irrita-céus, e não sei que mais. E numa lojinha divertida, que faria a felicidade de qualquer criança, encontrei um chá de egiptian licorice. Comprei pelo Egipto, que licorice eu não sabia o que era. Regressei.

Comecei a beber o chá todas as noites antes de fingir que me ia deitar. E a coisa sabia mesmo bem. Ao fim de algumas infusões, fui ao dicionário tirar as dúvidas: licorice queria dizer... alcaçuz.

Pronto. Está aqui a minha versão da aldeia global: um chá feito de um componente literário, proveniente da mitologia do Egipto (que da terra, eu já não sei), comprado em Nova Iorque, e bebido em Vilar do Paraíso, Portugal... Um verdadeiro diálogo de civilizações! Mas desconfio que não seja bem isto. Devia ter resolvido a transacção por telefone, fax, ou e-mail - isso sim, seria mais global. Provavelmente até existe uma loja aqui no Porto que vende o raio do doce produto...

Mas, enfim, uma vez desajeitado, desajeitado para as outras vezes. O que ganhei? O meu alcaçuz tem um sabor com história e foi estrumado com a boa e velha realidade. Sabe ao mesmo, mas acrescenta-me sabedoria. Sim, sim: é mesmo uma coisa de aldeia...

Olha para o que eu filmo

Oliveira é um dos meus cineastas favoritos (não, não vou dizer que é o mais velho realizador em actividade...). Tal confissão provoca sempre comichão a quem se irrita por tudo e por tudo. Ora, não é nada, não é nada, mas já aqui arranjei lenha para queimar quem me contrariar.

Para além dos filmes (ou melhor, de acordo com eles), os seus bitaites sobre cinema são sempre inesperados, intuitivos, têm aquele rigor que vem da rebeldia e não da teoria. Quem mais poderia ter defendido, à revelia de todo o pensamento justo sobre a sétima (des)arte, que ao cinema não se deve negar nada, nem mesmo a palavra? A sua coloquialidade em torno do assunto isola-o tanto quanto a estranheza da obra.

Descobri, contudo, uma afirmação na qual não acredito. Oliveira defende, diz e volta a dizer, que para fazer cinema não interessa nada a pessoa do actor, mas apenas a sua capacidade para construir uma personagem. Isto dito pelo homem que se recusa a dirigir os actores na sua busca? Pelo homem que inventou uma Bovarinha que só podia ter o rosto de Leonor Silveira? Que inventou, ao longo dos anos, uma screen persona para Luís Miguel Cintra? Que trabalha sempre com os mesmos actores (será que ele descobriu um bando de paus que não recua perante nenhuma colher)? Que também trabalha com não-profissionais que, manifestamente, não têm o talento da representação, mas se impõem enquanto presenças cheias de ecos?

O cinema de Oliveira é um olhar essencial e sempre pioneiro sobre o que se diz e o que se faz. E o aspecto mais produtivo dessa estética é precisamente o desacordo subtil entre palavra e gesto. Por isso, até na sua filofice o autor encontrou um método de humor irreverente onde adensa o mistério em torno da sua famosa e irredutível perversidade.

E até adivinho (porque sei do que a casa gasta) que no seu "Belle toujours", que ainda não estreou em Portugal, embora Oliveira afirme que o facto de Catherine Deneuve não protagonizar a personagem que a celebrizou no filme de Buñuel não é relevante, algo haverá na encenação que legitime e dê ressonância à mudança de actriz, de corpo.
Mas claro, prognósticos só no fim do jogo.

"Metropolis" - imagem

O INACTUAL 2

"Metropolis" - Fritz Lang (1927)

Sobre este filme algo maldito, devo dizer que não me parece aceitável a acusação de fascismo com que foi rotulado. Compreende-se: a época era de heroísmo revolucionário, qualquer desvio à ortodoxia ideológica causaria demasiada crispação. Para além do insofismável facto de a obra terminar com a solução ingénua de um homem de coração capaz de pacificar a relação entre as classes dirigente e laboral (o que me parece implicar, não uma apologia reaccionária, mas a noção de que aquela sociedade irá, de facto, ser transformada), o certo é que "Metropolis" nos deixa uma ideia desconfortável a que muitos filmes de boas intenções nem perto chegaram: se neste mundo, e neste tempo, se construir um Jardim do Éden, isso implica sempre que uma parte dos Homens tenha de viver num Inferno. Haverá menos fascista do que isto?

O cineasta elabora uma poderosa actualização bíblica. Nem sequer é subtil: há um Pai criador do mundo (a cidade não tem ailleurs), manifestação da insensibilidade do divino; há um Filho, piedoso e mediador que, ao ser crucificado no trabalho numa máquina, grita mesmo "Pai! Pai! Porque...?"; não falta um inventor luciferino, devidamente proscrito; e, claro, Maria...
Ao nível da representação da personagem feminina, pode-se mesmo dizer que Lang ousa a blasfémia. Ao longo da sua obra, o autor filmou uma galeria de mulheres quase sempre medidas pela bitola do anjo ("You only live once") ou do absoluto demónio ("Scarlet Street"), o que, para além da convenção ficcional, revela toda a condição do sexo feminino na sociedade de então. Esta Maria profeta, caridosa e maternal, sofre um processo de degeneração que provoca o aparecimento de um duplo não só malévolo, mas, acima de tudo, sexualmente exuberante (o que, nos assuntos de Nossa Senhora, convenhamos que só pode fazer figura de provocação). Mais do que o tema do duplo, Lang parece ter querido perverter a representação mítica do eterno feminino, mas fá-lo com demasiado ardor. As imagens são demasiado agressivas para serem apenas maniqueístas: é um exorcismo. 
Mas também há um milagre (aqui transferido para o poder da tecnologia - a passagem do rosto de Maria para a máquina Hel); uma aparição (a perseguição de Maria pelo cientista, culminando no alucinante grande-plano em que o rosto deste está cortado, em baixo, por um foco de luz capaz de cegar); uma crucificação (o filho a ser esgotado por uma máquina, já não uma cruz, mas uma circunferência que evoca um relógio, e por extensão, o próprio tempo)... A própria época em que decorre a narrativa, para ser mítica, já não se pode referir ao passado, mas ao futuro.

No entanto, onde na verdade reside o génio do filme (o sentido político-revolucionário da religião terá de esperar por "O evangelho segundo Mateus" de Pasolini para encontrar a expressão justa) é que, enquanto "Der mude Töd" (que, aliás, prefiro) é a tradução de todo um imaginário literário e pictórico para o cinema, "Metropolis" é a tentativa de absoluta reinvenção do imaginário, é a criatividade em estado puro, tão forte, tão eficaz, tão isenta de inibições, que eu suspeito que nunca dela nos iremos libertar. Para tal, contribuiu não só o conhecimento da arquitectura e da cidade modernas (nomeadamente, Nova Iorque), mas também os universos inconciliáveis da magia, da religião e da tecnologia, a estética de contraste luz/sombra, o fascínio do caleidoscópio, a dança - tudo misturado num caldeirão de impureza, de onde resultaram algumas das imagens seminais da História do Cinema.

Termino com uma questão para artistas plásticos e arquitectos: depois de quase um século de evolução tecnológica e estética do nosso mundo, por que razão este filme não perdeu a evidência de ficção científica?

quinta-feira, setembro 07, 2006

Partilha 2

Dois haikus

a centopeia de sombra
quando mudas de sentido
desfeita por um único raio de sol




a arquitectura de pedra
alicerce da movente
arquitectura de luz


(Estes dois poemas, que farão parte do meu livro "Um pouco mais ou menos de serenidade", servem de prólogo ao próximo post).

Exercício simples para aprender a linkar

Li aqui que um actor português se escusou a assumir uma escolha entre a Madona e o Papa.

Eu também não escolheria. Mas ao contrário.
Por falta de competência para os dois assuntos, passaria a pasta a quem de direito, e diria, o mais ressonante que pudesse:

Venha o diabo e escolha.

Confissão 2



Gente com quem simpatizo: quando o melhor do cinema é também o melhor da vida.

(Charles Chaplin e Giulietta Massina)

Afinação

Adenda ao meu post Ensaio-em-poema:

Quando Espinosa defende que a sua teoria não precisa de ser demonstrada, pretende primeiramente dizer que, das definições anteriormente partilhadas, e seguindo um caminho estritamente racional, o leitor será capaz de fazer, por si mesmo, a fundamentação.

O que aqui me parece relevante é que, ao abolir a demonstração num assunto que é claramente utópico, e acima de tudo ao usar a muito expressiva formulação de tal modo claramente, Espinosa já está a um passo do delírio, ou melhor, da evidência poética (o que não é a mesma coisa).
Não falava, portanto, de uma questão de estilo, mas de uma argumentação em que a racionalidade apenas esconde uma aderência sobretudo emocional.

A sombra

Há muito que os cangalheiros da teoria anunciaram a morte da pintura. Pior: como gatos com cio conceptual, é às pingas que a vão matando, todos os dias, todas as semanas, todos os anos.

Hélas (escrevo o post para usar esta palavra)! A pintura insiste em regressar. Como "Laura", no filme homónimo de Preminger, que todos davam como morta, e que ressurge de repente: vera Eurídice, mas uma Eurídice que não quer a coisa.

Para além de não entender o instinto patológico que leva alguém a passar o óbito a uma paixão, e desconfiando de que todas as mortes anunciadas são meras crises da imaginação (ao Dante, nem o limiar da morte o deteve), o que aqui me apaixona é esta reclamação órfica da pintura que sobrevive a tudo e a todos. Pintura que, mal lhe pomos os olhos em cima (o que equivale sempre a olhar para trás), regressa de imediato ao outro mundo a que toda a pintura pertence.

Rembrandt teria amado este absurdo.

Um adorno

Concebo a política como a reivindicação permanente da felicidade.

A palavra-chave é reivindicação. A felicidade, uma das dimensões mais transitórias com que temos de nos confrontar, é apenas uma palavra-mestra.

Por isso, defendo que continuemos a cantar "Guantanamera" (canção inócua que todos ouvíamos nos discos de vinil dos nossos avós), NÃO COMO QUEM ESQUECE, mas COMO QUEM SOBREVIVE.

Confissão 1

O único meio de transporte que eu suporto (não sei bem de que parte da imagem estou a falar).

(Fotografia de Shaikhet)

terça-feira, setembro 05, 2006

Ensaio-em-poema

Há alguns meses decidir começar um livro ecléctico que seria essencialmente constituído por aquilo que na altura chamei de ensaios-em-poema. Afinal, se existem poemas em prosa...

Conforme vou avançando no projecto, apercebo-me de que, para que um ensaio descambe em poema, é necessário que se verifique uma destas duas condições:

a) Se o problema colocado no ensaio for exaustivamente desenvolvido, para que a poesia o acompanhe é preciso estar sempre a forçá-la, é preciso continuamente surpreender o texto com a vontade e a exibição de fazer poesia. É preciso escrevê-la.

b) Em compensação, se o ensaísta for suficientemente livre para ter a poesia dentro de si, e se o seu texto apenas quiser sugerir um problema, sonhar uma questão, a via para a poesia pode ser directa. É o próprio acto de pensar que tem a evidência do poético.

Volto a afirmar que todas as teses estão erradas. Mas, pelo sim, pelo não, forneço um exemplo da segunda atitude retirado da "Ética" de Espinosa:

Quem quer vingar-se das injúrias pelo ódio recíproco vive, por certo, miseravelmente. Mas quem, ao contrário, deseja vencer o ódio pelo amor, esse, por certo, combate alegre e com segurança, resiste tão facilmente a um homem como a vários e carece, menos que ninguém, do auxílio da sorte. Àqueles que ele vence, esses cedem alegremente, não por deficiência, mas por acréscimo de forças; todas estas coisas se seguem de tal modo claramente só das definições de amor e de inteligência que não é preciso demonstrá-las uma por uma.

(Tradução de António Simões)

Casting 2

Tenho uma tese.

E como todas as teses deve estar completamente errada.

O que eu vejo é que os grandes actores dramáticos, quando representam (com toda a técnica do mundo) papéis cómicos, parecem sempre actores a representar. Em compensação, os actores com vocação para a comédia (falo de actores, não de entertainers ou apresentadores de talk shows), quando são presenteados com papéis decentes (mais ou menos sérios, tanto faz), conseguem imprimir à personagem uma densidade e uma verdade que ultrapassam qualquer tique de profissionalismo. Há exemplos recentes, como o do actor Adam Sandler (que costuma fazer filmes inenarráveis), exuberante em "Punch-drunk love", mas também se conhecem paradigmas míticos, como é o caso da actriz Harriet Andersson (uma das minhas intérpretes favoritas), que nos filmes de Bergman passou dos papéis leves de "Mónica e o desejo" e "Sorrisos de uma noite de Verão", para a contundência trágica de obras como "Em busca da verdade" ou "Lágrimas e suspiros".

Ou isto tem alguma coisa a ver com a natureza humana, ou (o que será mais certo) deriva pelo menos da minha percepção da natureza humana.

No papel da colossal estalajadeira de "O castelo" de Kafka, eu veria a actriz Márcia Breia (actualmente habituée da Cornucópia). Por baixo da autoridade da personagem, da sua capacidade estóica para o trabalho, do seu instinto maternal, e dos seus afectos irrisórios, pressinto uma dimensão de anti-heroísmo (e uma rudeza) que só uma actriz cómica saberia dar. No teatro, agigantada pelo guarda-roupa. No cinema, hiperbolizada à maneira de Eisenstein.

segunda-feira, setembro 04, 2006

Lendo "O Castelo"

Ao longo do romance de Kafka, as personagens constantemente verbalizam (com excessivo orgulho) a separação de facto entre a esfera profissional (fantástica tão-somente por ser complexa) e a vida privada. Ora, a narrativa vai desmentindo esse estado das coisas.

Na medida em que, para o autor, o real não se distingue do pesadelo, suponho que, por oposição, suponha que o "sonho" se limitaria a uma sinceridade consciente.

O estado do(s) mundo(s)

Excerto de um texto apócrifo de "Metamorfoses" de Ovídio:

"Terá sido Plutão empobrecido para enriquecer Urano?"

sábado, setembro 02, 2006

No escrínio 1

Fragmento de "O lago" de Vitorino Nemésio

"Só com nuvens e o vago
Desejo de tornar
A quanto fui, um lago
Cresce do meu vagar.

Cresce e fica de estrela
Posta em seu amplo fundo.
Conhecê-la
Era fazer-me profundo."

A conjunção "e" do primeiro verso não é, na verdade, copulativa. O "vago desejo de tornar a quanto fui" equivale (metaforicamente) às "nuvens". Só que enquanto estas fornecem a água necessária para criar a grande imagem do título, o vago desejo fornece o sentido do texto. Ou seja, o poeta entende o seu ofício criador como uma mistura do "já criado" (o real) com a sublimação de um pensamento. Mais moderna do que a uma primeira leitura poderia parecer, a demiurgia de Nemésio é denunciada enquanto técnica artificial.

Depois, são os dois "vagares". O lago nasce da lentidão do autor. No entanto, por mais lento que o autor se sentisse, a formação natural de um lago seria sempre muito, muito mais lenta. É um paradoxo. O Homem acelera o mundo, mas fá-lo quando se desacelera a si mesmo. As durações só são compatíveis devido à vaga liberdade que existe na poesia.

Uma estrela reflecte-se no lago. Ora, depois de tanta demonstração de poder criador, por que não ascende o poeta ao céu onde a estrela se situa, e fala apenas de a alcançar no lago? É que a imagem central do poema já foi criada, e já não há grande necessidade de maravilhoso. De qualquer modo, o sentido global do resto do poema aponta para que todo o encantamento presente não passe do reflexo de um passado. Daí que o poeta prefira o reflexo ao real. E daí que ele não possa escolher uma ascensão, mas só tenha a hipótese de uma queda - o poema é disfórico. E se recusa mesmo essa queda, talvez seja porque a estrela cuja posse o faria profundo está, afinal, à superfície.

Tal como em Mário de Sá-Carneiro, a "angústia" que se pretende comunicar não é dissociável da luxúria da imaginação. Mas se seguirmos o percurso dessa vitalidade lírica com atenção, veremos que ela está em perfeita sintonia com o conteúdo dos textos. O encantamento que o poeta provoca é um logro que o próprio poema se encarrega de estilhaçar.

Boas notícias

Durante anos, a formulação foi sempre a mesma:
"Pede-se, ao proprietário da viatura de marca Volkswagen, com a matrícula ??-??-??, o favor de se dirigir para junto da mesma."

Aparentemente, a mesma foi uma rameira tão concorrida (também com esse nome...) que acabou por se esgotar. Hoje ouvi:
"Pede-se, ao proprietário do Volkswagen com a matrícula ??-??-??, o favor de se dirigir para junto da sua viatura."

Ufa...

Más notícias

E em breve teremos um caso Marcos, um caso Lucas, e um caso João. Alguns casos apócrifos também.
Há, no presente, uma dimensão de Calvário que, francamente, eu chuto para canto.

sexta-feira, setembro 01, 2006

No escrínio 0

Há duas atitudes perante a poesia que eu nunca aceitei. Por um lado, muitos são os que defendem que um poema tem uma nobreza e liberdade tais que qualquer mugido apenas pode macular o palácio. São apaixonados, e têm razão em sê-lo. Mas um silêncio tão militante pode descambar em anarquia ou em ditadura de gosto. Afinal, eu não sinto a grandeza de todos os poetas, e não me importo nada quando alguém tenta iluminar alguns dos meus desamores.

Por outro lado: a escola. As crianças entaladas em peripécias de sintaxe, labirintos de figuras de estilo, e todo um séquito de minotauros técnicos que não dão qualquer chance ao fascínio (que é coisa que está sempre por um fio).

Postulo que se pode falar de poesia. Com a naturalidade de quem quer tornar clara a sua paixão. Os gosto discutem-se. Acima de tudo, discutem-se.

"No escrínio" é uma rubrica em que se publicará poemas ou fragmentos de poemas que no meu afecto se vão tornando preciosos, e que serão sempre seguidos de um breve comentário.

Dicionário 1

Não acredito em sinónimos.
Já o escrevi num conto (por publicar).
Ao sentido comum de uma palavra, é preciso acrescentar-lhe os nossos afectos e humores.

Por exemplo:
Animal é uma palavra que me parece fria, técnica. Mas alimária (palavra que, infelizmente, já ninguém usa) tem um pouco mais de tensão: é que já estamos quase a chamar besta ao bicho, ainda não estamos, mas quase.

Para que não haja equívocos: adoro animais. E chamo-lhes bichos.

O INACTUAL 1

"D'est" - Chantal Ackerman (1993)

Ackerman não tem receio de exigir muito do espectador. Este documentário não tem voz-off, não tem diálogo, não tem sequer um assunto claro, é lento, letárgico, triste, eventualmente cansativo. Parece uma elegia pela progressiva invernização de um mundo de pessoas em migração. As imagens são quase todas captadas durante a noite ou no crepúsculo da manhã, em espaços conotados com partidas e chegadas. A acção reduz-se à sonolência, ao frio, a uma inactividade que é tudo menos ociosa (isto, apesar de breves momentos luminosos: a brincadeira de algumas crianças, um tasco onde se dança).

O movimento da câmara, obsessivo, é lento, mas não tem a sensualidade onírica de, por exemplo, "L'année dernière à Marienbad". É apenas uma arcada de violoncelo, o caminhar compreensivo de um observador com menos curiosidade documental que empatia humanista.

A referência ao violoncelo não é gratuita. A cena central do filme é a execução integral de um solo neste instrumento - música densa, terrena. A obtenção deste tipo de expressividade não-verbal, não-sentimental, parece ter sido o grande objectivo da cineasta.

E claro, há ainda os retratos simulados (os indivíduos imobilizam-se perante a câmara, como se estivessem a ser fotografados). Se, na verdade, daí resultassem fotografias, o espectador seria tentado a elaborar mil ficções a partir da expressão congelada. Mas como o que está em causa é uma imagem-tempo, o retrato é aplanado pela duração,é desdramatizado, o sentimento é mantido fora de qualquer cliché ficcional, a virtualidade é esticada até ao máximo. De maneira estritamente cinematográfica, Ackerman diz-nos: são seres humanos. Nada mais. Nada menos.

Filme ao mesmo tempo sem pretensiosismo e sem trivialidade. O essencial.