quarta-feira, agosto 30, 2006

Godard e o tigre da Esso












Numa página do seu diário, diz Maria Gabriela Llansol que o dom poético é (...) uma dádiva que os seres vibrantes fazem entre si.

Interpretando à minha maneira tão bela formulação (e esperando não abusar da ousadia), eu defenderia que não quer isto dizer que "os homens escrevem para os outros homens que também escrevem" (o que seria inútil, inócuo, putrefacto até), mas que as pessoas que precisam de recriar aquilo que as faz vibrar, trabalham para quem com elas vibra por simpatia (sejam esses receptores artistas ou não). Ou seja, em toda esta aventura da criação estética, a única coisa que interessa é o diálogo. Um diálogo genuíno que se sobrepõe a fronteiras de espaço, de língua, ou de tempo.

As questões do mercado (como se a comunhão fosse quantificável), do património (para quê conservar um texto que já não comove ninguém?), do prestígio cultural, são todas falsas questões. Mas como são essas as motivações de quem torna a arte possível, o criador não tem outra hipótese senão usar esses equívocos em seu proveito. E não o afirmo com cinismo, mas com paixão e espírito de sobrevivência. Que o diga Godard, abusando do simpático símbolo da empresa financiadora de um dos seus filmes, como quem teima (sem puritanismos) em equilibrar o desejo com o real...

Somos homens imperfeitos num mundo imperfeito. E por isso, há quem precise de vibrar.

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