terça-feira, agosto 29, 2006

Casting 1

No Festival de Edimburgo, tive a especial sorte de assistir à encenação que Peter Stein fez de "Troilus and Cressida" de Shakespeare.
Algumas notas sobre as relações personagem-actor:

Tanto Aquiles como Heitor me pareceram especialmente conseguidos, ao nível do corpo. O primeiro servido por um infindável cabelo (não tanto apanágio de feminilidade, mas de moleza) em torno do rosto jactancioso do actor, e denunciado por um ventre flácido derivado do ócio a que o guerreiro se dedicou. Ao contrário, o Troiano, apesar da meia-idade, exibiu uma virilidade imaculada como se fosse de facto um guerreiro da mitologia.

Mas o que mais me entusiasmou foi a fusão entre o actor David Yelland (na foto) e a personagem de Ulisses, tal como eu a guardo no meu imaginário: um homem que ao mesmo tempo evidencia a sua idade mas se mostra bem-conservado em grega proporção, calmo, cheio de malícia político-diplomática, incapaz de uma emoção menos adequada, presume-se que em paz com a sua consciência e com a sua sexualidade, fazendo a transparência e o rigor da dicção corresponderem à evidência da rectidão de carácter, e (o que não é irrelevante) um indivíduo de classe social elevada.

Todos somos encenadores e realizadores de bancada. Mas se há quem se sinta invariavelmente defraudado (os que preferem o livro), eu confesso que, muitas vezes, o real(izado) vem de encontro às minhas expectativas.

Inicia-se, com este post, um conjunto de imaginárias sessões de casting.

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