quinta-feira, agosto 31, 2006

Respirar na blogosfera

O próximo post dará início a dois jornais sobre cinema. Um chamar-se-á O INACTUAL, o outro, claro, O ACTUAL. Referir-se-á este último aos filmes que se encontram em exibição no momento da sua escrita, e o outro aos que se exibem continuamente na minha cinemateca imaginária.

O que eu acho incrível é esta possibilidade lúdica de poder fazer um jornal por dá cá aquela palha, sem custos, onde eu sou director, redactor, gráfico e vendedor, e onde ocupo a posição de único censor.

Dizem os reformados do Restelo que a blogosfera é sinónimo de irresponsabilidade. Ora, é em coisas como esta (nem de editoras precisamos) que se vê quem sabe o que fazer com a liberdade. Também aqui se gere a diversidade do Homem.

Eu diria que, para o indivíduo da era internet, há três coisas que ele não pode deixar de fazer: conceber um blogue, plantar um blogue, escrever um blogue. Porque os princípios só se tornam patentes no verbo. Na acção.

Síndrome de Estocolmo


A vaidade é uma doença incurável. E presumir-se são em tão universal epidemia é fazer figura de moralista hipócrita. Dizia Kundera que a vaidade era mesmo a grande motivação dos santos.

E, de facto, quem não quer coroar a sua vida (seja qual for o conteúdo desta) com um Prémio (no sentido lato do termo)? Francamente, não dizia que não a uma Ilha dos Amores (não setenta, mas pelo menos amores escolhidos a dedo por mim, e nada de virgens, que eu prefiro pessoal com experiência). E mesmo que sejamos genuinamente austeros, quando somos raptados por uma honraria, ao fim de algum tempo acabamos por achá-la simpática.

Estranho é que já com ela simpatizemos, e para ela trabalhemos, quando o rapto ainda não se deu. Não é ainda um problema de moral. É que o percurso assim vivido, deixa de ser pautado pelo prazer e pelo risco, e torna-se uma travessia no deserto de uma ideia fixa e infantil. Ainda por cima, podemos escorregar...

Que o diga Scorsese, por quem tenho imensa admiração, mas que nos últimos anos faz filmes para tentar ganhar Óscares. Continua de mãos a abanar. E os filmes... sem comentário.

quarta-feira, agosto 30, 2006

Godard e o tigre da Esso












Numa página do seu diário, diz Maria Gabriela Llansol que o dom poético é (...) uma dádiva que os seres vibrantes fazem entre si.

Interpretando à minha maneira tão bela formulação (e esperando não abusar da ousadia), eu defenderia que não quer isto dizer que "os homens escrevem para os outros homens que também escrevem" (o que seria inútil, inócuo, putrefacto até), mas que as pessoas que precisam de recriar aquilo que as faz vibrar, trabalham para quem com elas vibra por simpatia (sejam esses receptores artistas ou não). Ou seja, em toda esta aventura da criação estética, a única coisa que interessa é o diálogo. Um diálogo genuíno que se sobrepõe a fronteiras de espaço, de língua, ou de tempo.

As questões do mercado (como se a comunhão fosse quantificável), do património (para quê conservar um texto que já não comove ninguém?), do prestígio cultural, são todas falsas questões. Mas como são essas as motivações de quem torna a arte possível, o criador não tem outra hipótese senão usar esses equívocos em seu proveito. E não o afirmo com cinismo, mas com paixão e espírito de sobrevivência. Que o diga Godard, abusando do simpático símbolo da empresa financiadora de um dos seus filmes, como quem teima (sem puritanismos) em equilibrar o desejo com o real...

Somos homens imperfeitos num mundo imperfeito. E por isso, há quem precise de vibrar.

Partilha 1

trabalhos oficinais

são carris por onde viajam gestos
são flechas de ternura
são as mãos

talvez herança de um Tio malabarista
de tal modo por elas passam tantos fazeres
por vezes baús às vezes deltas
mas o golpe é tanto e a asa tal
dir-se-ia que o fio do braço segura a-penas
o papel do papagaio


Nota: na verdade, este poema foi pré-publicado no Jornal dos Outonos Poéticos de V. N. Famalicão, em 2004 (ainda sem o título). De qualquer modo, faz parte da secção "Artes em Partes" (sim, é uma referência ao edifício da Miguel Bombarda, no Porto) do livro "nu abrir em nó", que estou presentemente a escrever.
Inicia-se, com este post, a publicação ocasional de alguns exemplos da minha poesia.

terça-feira, agosto 29, 2006

Casting 1

No Festival de Edimburgo, tive a especial sorte de assistir à encenação que Peter Stein fez de "Troilus and Cressida" de Shakespeare.
Algumas notas sobre as relações personagem-actor:

Tanto Aquiles como Heitor me pareceram especialmente conseguidos, ao nível do corpo. O primeiro servido por um infindável cabelo (não tanto apanágio de feminilidade, mas de moleza) em torno do rosto jactancioso do actor, e denunciado por um ventre flácido derivado do ócio a que o guerreiro se dedicou. Ao contrário, o Troiano, apesar da meia-idade, exibiu uma virilidade imaculada como se fosse de facto um guerreiro da mitologia.

Mas o que mais me entusiasmou foi a fusão entre o actor David Yelland (na foto) e a personagem de Ulisses, tal como eu a guardo no meu imaginário: um homem que ao mesmo tempo evidencia a sua idade mas se mostra bem-conservado em grega proporção, calmo, cheio de malícia político-diplomática, incapaz de uma emoção menos adequada, presume-se que em paz com a sua consciência e com a sua sexualidade, fazendo a transparência e o rigor da dicção corresponderem à evidência da rectidão de carácter, e (o que não é irrelevante) um indivíduo de classe social elevada.

Todos somos encenadores e realizadores de bancada. Mas se há quem se sinta invariavelmente defraudado (os que preferem o livro), eu confesso que, muitas vezes, o real(izado) vem de encontro às minhas expectativas.

Inicia-se, com este post, um conjunto de imaginárias sessões de casting.

segunda-feira, agosto 28, 2006

Hier

A pedra de Roseta é a Gioconda do Museu Britânico. Não falo apenas do sucesso que lhe garantem os turistas com suas câmaras mais ou menos japonesas. Nem o digo por ironia, por política dos pictóricos autores, e muito menos por misoginia.
É que o raio do calhau tem mesmo um sorriso enigmático: limitou-se a apaziguar um mistério, para inflamar muitos, muitos mais.

domingo, agosto 27, 2006

Um

Hesitei imenso entre baptizar o blog como "Cabo da boa tormenta" ou como "Cabo da má esperança". Mas a primeira hipótese pareceu-me menos falaciosa... Pois pretende-se, por mercenário desejo de sucesso, que o blog seja um cabo por onde os nautas sejam obrigados a passar. Não se garante, contudo, que cheguem a bom sítio, ou que cheguem seja onde for.

Falar-se-á aqui de poesia, cinema, teatro, literatura (o que é isso?), e de tudo aquilo que me faça menos ou mais irritação. A começar e a acabar na vidinha.

Só não lhe chamo blog-fleuve porque, em vez de abrandar a tormenta, ainda mais escolhos forneço à língua. Mas não resisto a postar um pedaço do Ganges.

Até breve.