domingo, dezembro 08, 2013

Duas maquinarias

Por via da figuração, um determinado lugar mental passa a ser semanticamente articulado através da engenharia de outro lugar mental. É como se este fosse uma máquina e o primeiro uma matéria que a máquina transforma em termos hermenêuticos (tentei exprimir isso num poema infantil: aqui).

A alegoria tenta, por via deste processo, tudo revelar sobre a mecânica do sentido. A metáfora, figura de palavra e não de texto inteiro, tenta tudo sugerir. Qual a maior ambição?

Nota "O rio do ouro"

Revi este lindíssimo filme de Paulo Rocha, e reparei que:


1. A paixão de Carolina pelo Zé dos Ouros resulta sobretudo do chamamento da tragédia que este traz consigo. Não interessam as razões nem as formas como estas se vão processar, não interessa o teor específico do afeto ou da fatalidade, o que Carolina ama é o crime que traz dentro de si, crime que aquele homem acorda no rutilar do seu ouro.

2. Ao arrepio de todo o bucolismo, a ruralidade é assim apresentada como uma panela de pressão, em que as sensualidades e violências latentes estão apenas à espera da oportunidade certa para eclodirem em loucura. Ora, não foi a loucura (uma loucura diversa, claro) que António Reis também associou ao campo no seu portentoso "Jaime"?

Posto de outro modo

Ser poeta é ser mais alto, ou não paga sequer o que ocupa na página em branco? Messianismo romântico ou nada querer da poesia? Uma chama na alma ou uma impostura na pena? Aura ou neura?

Após ter revelado o teor da minha relação com a poesia (aqui), esta discussão é-me completamente alheia. Nem sequer a consigo compreender.

domingo, dezembro 01, 2013


Nota "Sleuth"

No seu último filme, Joseph L. Mankiewicz pretendeu mostrar como o jogo das classes sociais não se joga a feijões. O personagem opressor até pode genuinamente pensar que tudo não passa de cenários de teatro, mas o oprimido não tem medo de ir até ao fim, nem que isso implique oferecer a sua morte literal para que o jogo revele a realidade de toda a sua violência.

Mankiewicz invade o filme com inserts dos objetos do personagem de Lawrence Olivier, como se eles fossem as pistas de que Michael Caine fala no fim, aquelas que não se vêem apesar de estarem à vista. Quando a moral é didaticamente estabelecida, podemos todos sair do filme para a realidade acreditando que as pistas do esmagamento social podem ser detetadas por um olho que "Sleuth" tornou politicamente elementar, meu caro Watson. A public eye.

sábado, novembro 30, 2013

Partilha 159

(céu carregado)  


Certas flores pendem das suas copas como vinhos de tal modo ébrios de si mesmos que contrariam a lei da gravidade ficam anos a fio nas pipas, essas flores de uma só estação. E também velas que se acumulam acesas, ninguém morreu, deus não precisa de existir, velas a nada ancoradas a não ser ao seu fazer sopro. E também distantes banhos de espuma, onde há de um dia o Fortuna fazer propaganda a um sabonete quase metafísico. Um mundo infinitamente suspenso, infinitamente maduro. Puta que pariu, é preciso dizê-lo: são monções de beleza como as que se diz que existem nas Índias mal localizadas.

sábado, novembro 23, 2013

"La passion de Jeanne d'Arc" - imagens





O INATUAL 82

"La passion de Jeanne d'Arc" - Carl Theodor Dreyer (1928)



Quando Cristo desceu à Terra, trouxe com ele uma inquietação política muito concreta, aquela que desconfia da possibilidade de algum humano poder ocupar o posto de juiz na causa de outro humano. Mas como a História se escreve por linhas irónicas, a Igreja que em seu nome foi fundada acabou por instituir o seu próprio tipo de tribunal e de, através dele, conjugar Julgamento e Paixão na ofensiva concertada a múltiplas reencarnarções do mártir inicial. "Cristo" continua a ser julgado e é, de novo, um inside job.

É isso que Dreyer, religioso muito ciente da intolerância que espreita a cada canto da religião, aborda neste seu celebérrimo filme, por via da encenação dos registos históricos do processo com que a Igreja queimou a esperança e o corpo da jovem Joana d'Arc. A suposta santa é sobretudo uma imensa teimosa, como o Johannes de "Ordet", como "Gertrud", e como eles a sua aristocracia resulta de uma adesão a um Bem tão pouco banal que provoca uma reação de aflita falta de fé naqueles que têm a tarefa de os verem viver. Acima de tudo, o que Joana não aceita é o compromisso de que a entendam como emissária do Mal, e assim em nome da candura se reclama apenas mal-dita, mal-pronunciada.

O filme tem um conceito estruturador tão precisamente legislado quanto preciosamente executado pela imaginação ad hoc de um grande governante das formas. Enquanto encenação de um processo, de um esquema simples de pergunta-resposta, a montagem da obra reparte-se essencialmente entre os planos que nos dão a ver Joana, a interrogada (planos fixos, longos, lentos, solitários, em todos os cenários escolhendo um branco despojado como fundo) e aqueles que registam a azáfama dos acusadores (variedade inesgotável de rostos, movimentação de câmara, opções de mise en scène renovadas a cada instante). É, como já uma vez escrevi, a estrutura de mil contracampos a girarem em torno de um poderoso campo de atração. E a cada momento se renova a maneira de regressar a essa estrutura, a esse parti pris obsessivo e quase único.

Praticamente não há planos que Joana partilhe com outras personagens. Se, em "Gertrud", vamos assistir a diálogos em que os conversadores nunca olham uns para os outros, em "La passion...", muito antes da consciencialização do poder semântico do plano-sequência, são os cortes de montagem (as linhas do enquadramento) que separam os dialogantes, que lhes impedem uma relação de saudável imanência. A solidão de Joana (a sua proximidade das lágrimas, a graça enlouquecida que a parece iluminar a partir de dentro) é por isso constitutiva da radicalidade do seu legado.

Não podemos hoje ouvir as palavras históricas que foram pronunciadas no processo de Joana d'Arc (apesar de conhecermos os seus registos escritos). Mas podemos sofrer os fantasmas dos rostos humanos que as terão pronunciado. Talvez a ontologia do cinema sonoro tenha permitido a Dreyer encenar o mais justo milagre da história do cinema por ação da mais simples Palavra. Mas "La passion..." não é menor desafio ao momento mudo da história do cinema, na medida em que inventa a intensidade e a utopia da palavra mental, daquela que passa de coração para coração sem ter qualquer necessidade de possuir um corpo acústico. Será este filme os antípodas de "Der letzte Mann" de Murnau? Eventualmente, mas a verdade é que parece haver algo que une o ser o último dos homens ou das mulheres à necessidade que a  palavra tem de se aproximar da sua fronteira espectral, do silêncio.

segunda-feira, novembro 18, 2013

Partilha 158

(lógica da porcelana) 


Composto de champanhe, ele inclina-se até à noite para não fazer espuma dos dias. Falo do sol. Sim, a terra é uma imensa casa solarenga que foi ocupada por intratáveis. Eu continuo a cuidar do meu precioso vaso da dinastia Orquídea, no qual a semente primeira deu à luz toda uma heráldica de estações, cores e oferendas inúteis. Não, não sou um tard-venu, sou um ejaculador Precoce.