Domingo, Fevereiro 07, 2010

Não, a pintura não está morta



(Fotografia de Virgílio Ferreira)

Contra Platão

Ao terem intuído as possibilidades da lógica, os sábios da Grécia Antiga encontraram o conceito de unidade. Ou seja, perceberam que o devir presente em todos os fenómenos ocultava uma dimensão imutável, uma essência, que podia ser explorada pelo pensamento.

A ciência veio dar-lhes razão: os homens descobriram que era possível explicar o mundo de acordo com leis universais (por exemplo, a Teoria da Evolução foi construída com base nos indícios cada vez menos refutáveis de um princípio comum a toda a vida terrena).

No entanto, a beleza da lógica talvez tenha tolhido a liberdade do pensamento grego na sua aplicação à especificidade do comportamento humano. Pois, se podemos falar de uma unidade-absoluta a propósito das disciplinas que orbitam em torno da matemática (os físicos continuam a tentar arranjar uma teoria única, universal, simples, que explique a totalidade do universo), não podemos aplicar o mesmo discurso às humanidades (política, economia, sociologia, psicologia, cultura, religião, etc.) sem provocarmos sofrimento aos próprios seres humanos.

É claro que a nossa espécie só se consegue organizar em torno de analogias do conceito de unidade (Deus, o amor, a família, a nação, a etnologia, etc.), mas a unidade, enquanto invenção do humano, só é respirável numa prática de relatividade.

Relatividade, mas não relativismo. A ambição da unidade é essencial à sobrevivência (desde logo, não conseguiríamos ter uma auto-consciência de espécie sem esse apriorismo). Mas essa unidade já não pode ser governada pela matemática, mas sim pela linguagem, que não é um fenómeno de pura arbitrariedade como por vezes se pretende, mas a medida mais justa que o homem arranjou de a si mesmo se entender e em si mesmo intervir.

É difícil não esboçar um sorriso perante as gravíssimas preocupações metafísicas de São Tomás de Aquino (se bem que tudo isso me apaixone, como me apaixona a literatura de Lewis Carroll ou Benjamin Péret). Mas ainda mais difícil é não sentir um amargor profundo perante os cínicos que desconfiam a palavra.

É o nosso instrumento. Aquele que nos permitiu inventar o amor sem o sabermos definir de forma fatal. Aquele que nos permite inventar o neologismo que abraça cada nova impertinência na generosidade sempre crescente da unidade-relativa. Aquele que nos permite construir um plano de transparência sobre o mundo, esse papel-vegetal onde o imitador se confunde com o opressor sem imaginação nem liberdade. Aquele onde podemos distinguir o invisível literal do invisível metafórico.

Excerto de uma carta de amor 4

.......olhe, escrevo-lhe para lhe apresentar, de antemão e por mão própria, o príncipe que em mim mesmo sou. Nem imagina: vivo num mónaco interior de tal modo luxuoso que não me faltam pajens para apajearem as virtudes, aias para suspirarem pelas derrotas ou bobos para ocultarem a sordidez sob um manto de refinada ironia. Sapatos de cristal, vistas sobre a rivièra, boatos de paparazzo: tenho tudo isso sob a forma de desregulamentos de insulina, ousadias de colesterol, ou penosas dores musculares. Chego a pensar que sou mesmo o príncipe dos pedroludgeros, pois de outra coisa talvez não pudesse ser. Espero assim conseguir cegá-lo o suficiente para que, no nosso primeiro encontro, não precise de me engolir como quem engole um beijo........

Confissão do adulto

Não endeuso a minha infância particular (apesar de ter sido uma época suficientemente serena para não me deixar demasiadas recordações), nem me considero propriamente um nostálgico (preferia, aliás, que a vida me corresse bem agora, ou daqui para a frente).

Se dou tanta relevância à infância na minha reflexão, é porque esse é o único momento da vida em que os humanos acreditam mesmo, e com pujança física, na possibilidade de serem felizes sem mácula. Ora, essa evidência (essa convicção) parece-me ser o ponto de partida a partir do qual podemos elaborar uma ética, um empenhamento político e/ou uma aventura criativa, sem precisarmos de recorrer a uma fundamentação transcendente.

A suivre.

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Pergunto-me quais as consequências de um tipo de organização económica que baseasse a sua dinâmica no valor intrínseco dos produtos (e dos recursos), e não na possibilidade de lucro obtida a despeito desse valor?

Quarta-feira, Fevereiro 03, 2010

O INACTUAL 44

"Adieu, plancher des vaches!" - Otar Iosseliani (1999)


O cariz onírico dos filmes de Otar Iosseliani não obedece meramente a um princípio de evasão, mas constitui-se como o ponto de partida de um discurso radicalmente comprometido.

"Adieu, plancher des vaches!" retoma a encenação de um microcosmo social relativamente estável (apesar dos elementos que surgem e desaparecem), onde todos os seres se afectam de forma mais ou menos consciente. Se a circunstância deste grupo humano ser descaradamente sui generis afasta a ficção de pretensões de exactidão realista, também não a aproxima da articulação de uma utopia. De facto, parece ser possível (comédia) iludir a condição social verdadeira (o pobre que se faz passar por rico e vice-versa), mas já não é provável que se possa escapar às consequências dessa ilusão (a rapariga casa com o primeiro). Se os personagens não estão conscientes desse drama, são pelo menos suficientemente sinceros consigo mesmos para saberem que nenhum estatuto oferece uma compensação satisfatória.

Para além de cada um ser louco à sua maneira (a escolha de um meio de transporte obedece menos a imperativos utilitários do que à necessidade de tornar visível o nível de refinamento do estilo pessoal...), o seu quotidiano (mais ocupacional do que propriamente laboral) parece não passar de um método de regresso obsessivo ao sexo, ao vinho e à música. No seio desta anarquia de cunho existencial, há tempo para celebrar os mitos da amizade (o encontro de almas gémeas fora do espectro das complementaridades sociais e sexuais) e da liberdade (o personagem interpretado pelo próprio Iosseliani abandona o seu pequeno mundo de comboios eléctricos, evidentes metáforas do gozo da criação fílmica, para se lançar numa viagem sem destino que seria quase demagógica se não representasse, precisamente, uma alternativa simbólica à prisão que até o cinema, plancher des vaches, impõe).

A solidariedade poética que o autor devota às personagens não o impede de representar a crueldade que elas possuem, sem precisar de recorrer a quaisquer moralismos: a mulher excêntrica que não aceita as excentricidades do marido, o rapaz de boas famílias que abandona o amigo depois de ambos saírem da prisão, o marido que mata a mulher após uma discussão, a criança inteligente que participa na vida criminal, o trabalhador incompetente que se vinga no despedimento de outro trabalhador, etc.

Parece que a Humanidade, apesar de ser muito humana, não é flor que se cheire. Iosseliani conclui: com a passagem do tempo, as coisas mudam, mas não necessariamente para melhor.

Segunda-feira, Fevereiro 01, 2010

Domingo, em Serralves...



"El angel exterminador", de Luis Buñuel

Partilha 72

datação por carbono 14


se eu deixar por limpar
esta mancha no tacho mal lavado
estarei
por ventura
num salão árabe
sob a luz admirável de mil e uma pedrarias
de hesitação

ah ah ah ah ah
sobreviver
é sempre politicamente in-cor-recto
pois quem ri por último
ri com mais cagança
- samira, vai-me comprar cueiros
que eu quero pensar a criança


Nota: "pensar uma criança" é uma expressão antiga que significa "mudar ou limpar os cueiros".

O Emerson String Quartet interpreta um contraponto da "Arte da Fuga" de J. S. Bach.

Domingo, Janeiro 31, 2010

Partilha 71

modus vivendi ?


espero
que a ternura dos quarenta
não seja uma massagem administrada num spa
(dizem que custa os olhos da cara
e só eles
ai de mim
não botaram gordura)

o melhor é escorregar numa casca de banana
e fingir que sou um poeta do passado
tísico
claro
em direcção a um país sem norte
onde já ninguém grita
e onde o sol é sempre um coque

É sem pompa nem circunstância...

... que anuncio o personeto, uma forma poética que inadvertidamente encontrei, e que servirá de molde de construção textual numa das secções do livro "quarenta graus à sombra" (cuja redacção foi iniciada com o poema que partilhei aqui). Estive para baptizar a dita forma com o nome soneto ludgeriano, mas não o conseguia pronunciar sem me desatar a rir.


As características do personeto são as seguintes:

1. O destaque compositivo será dado aos números 2 e 7, o que implica que o soneto será sempre composto por duas estâncias de sete versos, ou por sete estâncias de dois versos (esta última situação será mais rara).

2. As estâncias serão caracterizadas por uma heterometria muito contrastada (podendo as medidas dos versos variar entre uma e catorze sílabas métricas).

3. O tom do poema permanecerá doméstico e gracejador, a despeito da violência do fundo metafórico.

4. Serão bem vindos os diálogos, os parêntesis, as onomatopeias.

5. As duas dimensões sensitivas que um texto pode trazer (imagem, som) serão invariavelmente aludidas em cada poema (ainda que de forma muito oblíqua).

6. Cada soneto terminará com uma chave de ouropel, que terá um sabor infantil (uma emoção fácil de rebuçado), e onde se manifestará a única rima forte do poema.

7. Estas regras não constituirão um dogma, e desejam ser, a qualquer momento, transgredidas.



No post acima, está outro exemplo de personeto.

Galeria Murnau 1



Murnau am Staffelsee
(a vila de cujo nome o realizador tirou o seu pseudónimo - supostamente)

Morreria se tivesse escrito 1

"Em todas as épocas houve pessoas diferentes, mas se a diferença se espalhar a sociedade fica em perigo."

António José Saraiva

Sábado, Janeiro 30, 2010

Gostaria de ter escrito 4

"La rationalité (...) consiste précisément dans l'adaptation continue de notre langage à un monde en continuelle expansion (...)."

Mary Hesse (citada, e presumo que traduzida, por Paul Ricoeur em "La métaphore vive")

Quinta-feira, Janeiro 28, 2010

Partilha 70

arte poética n


não é que catar os piolhos da cabeça de um filho
corresponda
a fazer um serviço da vista alegre
mas era exactamente essa correspondência
que eu queria
hoje
escrever

juro
que tentei fazer poemas
sobre esse único assunto da poesia que é a morte
mas sobrevivi
(dlam dlam dlam
os sinos que já não se ouvem na cidade
ouvir-se-ão aqui)

Terça-feira, Janeiro 26, 2010

A zero dimensões

O filme "Avatar", de James Cameron, é de tal modo inócuo que não me aquece nem me arrefece. Mas hoje, no jornal PÚBLICO, um crítico de má fé dizia que o posicionamento de um espectador perante a obra seria revelador da sua fibra política. Ora, essa insinuação merece-me alguns comentários.

Não tenho razões nenhumas para duvidar das convicções ideológicas do realizador da obra em questão. Aliás, Hollywood gosta de manifestar a sua tendência esquerda suave, desde Sean Penn de mangas arregaçadas em New Orleans até à obsessão adoptante de Angelina Jolie. Mas também não tenho razões para duvidar da profunda incultura dos fazedores de cinema industrial, não querendo com isto dizer que por lá não se lêem muitos livros, mas que são raros os cineastas que trabalham nesse contexto e que pensam a fundo o seu métier. Nem sequer é suposto que o façam...

Cameron parece querer estabelecer um discurso sobre o Outro (imediatamente, o modelo é o índio da Amazónia, mas o árabe também está na mira, o que é desde logo estranho, pois qualquer semelhança entre as duas situações é pura coincidência). Se o objectivo era esse, pergunto-me qual terá sido o motivo que o levou a substituir a tentativa de construção de uma imagem desse Outro (veja-se o notável esforço de Audiard em "Un prophète") pela imagem de um efeito especial que se confunde com o bestiário disney e o imaginário alien de Steven Spielberg? Dir-me-ão que é uma parábola, e que eu até sou um nerd do simbolismo. No entanto, quer-me parecer que a referência cultural escolhida é tudo menos dignificadora desse Outro. É como se Cameron não soubesse nada do índio (como eu não sei), e também não quisesse, profundamente, saber (só que eu não quero fazer filmes sobre os índios). Aliás, não teria sido interessante recorrer a um modelo de narrativa mítica próximo da sensibilidade cultural desses povos da floresta, em substituição da forma gasta e gasta e gasta do screenplay hollywoodiano?

Ouvi opiniões de alguns espectadores dizendo que a história do filme era the same as usual, a sua mais-valia sendo apenas o panache tecnológico. Não sei como Jorge Mourinha ainda não percebeu que a forma de transmitir a mensagem é mais determinante, do ponto de vista político, do que a espuma superficial da própria "mensagem" (pois isto não é jornalismo, nem ensaísmo). O público já o percebeu. Aliás, uma das visões mais nobres do Outro que o cinema americano produziu recentemente é o filme "Letters from Iwo Jima" de Clint Eastwood, cineasta conservador.

Para além das suas piroseiras pseudo-poéticas dignas do quadro do menino com a lágrima ao canto do olho, o filme de Cameron está cheio de teias de aranha: o 3d é um efeito muito antigo, a forma narrativa é mais velha que o António Pedro Vasconcelos, não há nenhuma inovação ao nível da montagem (isso custa, o Eisenstein pensou-a sistematicamente, o Godard teorizou-a em boutades), do som, da representação dos actores (já agora, onde é que eles estavam?). Enquanto espectáculo, "Avatar" nem se consegue aproximar do "Titanic", que era um blockbuster tão histérico que acabava por nos afundar com ele. A relação do espectador com o próprio cinema também não é beliscada em nada: Cameron continua a querer produzir um espectáculo de feira, como quiseram os pioneiros da história dessa suposta arte (o espectador é o paraplégico circunstancial que se identifica com o seu avatar no ecrã). Durante o visionamento deste futuro do cinema, lembrei-me com saudade de um simulador com que me diverti na Eurodisney, mas logo a seguir tremi de horror: no próximo "maior-filme-de-sempre-o-mais-caro-e-o-que-vai-ganhar-mais-óscares" que o realizador fizer, vamos ter de usar coletes ortopédicos para protegermos a coluna dos solavancos que as cadeiras da sala de cinema nos vão proporcionar.

A oeste nada de novo: só o aprimoramento da tecnologia. Dir-me-ão que é o futuro do marketing do cinema. Eventualmente. Mas então eu digo ao senhor Cameron que a destruição da floresta tropical e das civilizações que nela floresciam se deveu, precisamente, a um primeiro momento de glória de um funcionamento da economia, o capitalismo (que não se chamaria ainda assim, claro), em que o valor intrínseco de qualquer produto é secundarizado perante a possibilidade de geração de lucro. Ora, "Avatar" é um objecto capitalista declarado (com tudo o que, de positivo, isso traz: postos de trabalho, liberdade de consumo, etc.). Os críticos da sua suposta mensagem de esquerda não têm motivos para estar alarmados: o espectador, ao sair da sala de cinema, não se vai tornar um guerrilheiro da "Greenpeace" (sobre a possibilidade da arte mudar o mundo, já me pronunciei aqui).

E quanto à ecologia do cinema? Quantas espécies de cinema estão neste momento em vias de extinção, porque este tipo de estética definitivamente triunfou e está a secar todas as outras possibilidades à sua volta? Presumo que algum leitor me vá insultar com a palavra "intelectual" (mais je ne m'accuse pas). Quem tem tido a bondade de me ler, saberá que tenho tentado, ao longo da feitura deste blogue, falar das mais diversas possibilidades de cinema, e que me mantenho aberto a todos os debates que envolvam cinéfilos militantemente apaixonados. Estou, isso sim, empenhado no salvamento da floresta selvagem, perigosa, abundante e inesgotável, do cinema.

Alguma vantagem em "Avatar"? Claro: a intuição de que, quando encontrarmos os marcianos, são eles que têm de ter medo de nós.